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sábado, 27 de março de 2010

Escuridão


Lago escuro
sombras e cinzas
Um corpo flutuando
no ar, no rio, nos sonhos
Um vácuo desdobra meu peito
A existência e a decadência
reunidas, assistidas
A criança caída e o silêncio
O escândalo e a indecência
Flashes, fotos, fúria
Não encontro razão
Em meus livros e bíblias
em minhas cartas e tintas
Não ocorre, não socorre
apenas olha a imensidão
De sentimentos e vícios
de entimemas e ócios
Estou encurvado
espinha dorsal arqueada
perante essa sensação
vaga e fugaz
de que não há causas
e não há consequências
Cursos e decursos
são apenas a ressaca
De uma noite mal pensada
De um pesadelo em consciência
De uma morte sem óbito
Carrego esse cadáver para todo lado
Carrego essa culpa em meu colo
Cuido para que não me mate de súbito
respeitando o meu inalienável direito
a um fim gradual, frio e calculado

na dosagem cruenta de um conta-gotas

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Voo


Neve ao meio-dia, minhas calotas desmancham diante da furiosa indiferença com que me objeta. Estou indeciso, não sabendo em que acreditar nas suas verdades ou nas minhas mentiras Estou sem companhia, a solidão me abraça e o fracasso me beija os pés. Minhas vigas não sustentam mais nem meu corpo nem seus sermões. Sou um copo vazio, cacos de vidro, minhas interrogações são degraus para a mais profana poesia, para a mais neandertal melancolia. Me deixe em paz, me deixe só, me deixe, vivo, morto, alcoolizado. Não quero mais brincar, não quero mais saber. Me basta apenas a terra fria, inorgânica, saborosa. Me basta um fim, um limite. Sou apenas uma estrela sem tela, um artista sem obra, um barco sem vela, um navegador sem paraíso. Se fosse Colombo, perdido estaria, pelos mares, pelas torres, pelos bares. Se fosse Hitler, o nazismo seria apenas livre devaneio. Gutemberg, se meu corpo habitasse, jamais chegaria à imprensa. Morreríamos sem a explosão de letras que pariu nossa aldeia global. É muito cedo para morrer, é tarde para sofrer. Me deixe no chão, mas traga veneno. Uma última taça antes do voo seminal.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Reflexos


Terra redonda, sorriso vermelho, poesia no sangue, calor em fevereiro, chuvas sem fim, rios de um jardim, luzes e letras, fontes e fios. Algo contínuo e findo. Meu coração em um vidro, um apocalipse de uma noite e um verão na janela de Shakespeare. Um dia de baile e de bestas. Fantasia e fantasmas. Morcegos e namorados. Uma lâmina no escuro e cortes nas sombras. Mãos e magos, mágicos e monstros. Maravilhas da noite. Manchas no lençol e vírgulas de um terçol. Um dia me explico no confessionário da sala de espera divina. Estou em Deus e estou só. Uma briga com o espelho e outra com o vulto atrás de mim. Tudo se quebra e vejo meus pedaços enquanto o reflexo me encara vencedor. Minhas mãos e o fogo, a poesia que queima em meus ossos e me carboniza os miolos. Sou poeta e profeta do meu destino. Ainda que não tenha um.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Mentiras e promessas 2

Como vocês podem ver, de "improvável" em 2008, o aumento do IPTU em JF passou a ser real, um pesadelo em 2010. Está provado que em Custódio Mattos não se pode confiar. JF mais uma vez se deixou trair por uma pessoa que não tem o menor compromisso pela cidade e por quem a elegeu. Uma pena.

Mentiras e promessas



Na época da campanha para a PJF (2008), mandei e-mails pedindo esclarecimentos sobre o IPTU para os dois candidatos que foram para o segundo turno, Margarida Salomão (PT) e Custódio Mattos (PSDB). Em verdade, perguntei se os candidatos tinham intenção de majorar o tributo. Vejam as respostas das assessorias de cada um:

resposta‏
De:
Comitê Margarida (imprensamargaridasalomao@gmail.com)

Risco médioVocê pode não conhecer este remetente.Marcar como confiável|Marcar como lixo
Enviada:
quarta-feira, 22 de outubro de 2008 17:30:43
Para:
danielmacario@hotmail.com
Daniel:

Margarida já falou claramente que vai rever a questão da planta do município, que fornece ferramentas para o cálculo do IPTU e que, certamente, ele não sofrerá reajuste. Pode confiar.

Comitê de Imprensa Margarida Salomão

_______________________________________


custódio responde‏
De:
Ailton Alves (custodioresponde@custodio45.can.br)

Risco médioVocê pode não conhecer este remetente.Marcar como confiável|Marcar como lixo
Enviada:
terça-feira, 21 de outubro de 2008 19:37:41
Para:
danielmacario@hotmail.com

Anexos:
1 anexo

45_Acoes2...pdf (349,2 KB)

Olá Daniel,
Estou muito confiante nesse momento que se aproxima. Tenho a absoluta certeza de que vamos resgatar a honra de nossa cidade e juntos trilhar o caminho certo, o caminho do desenvolvimento econômico com justiça social.
Com relação a sua proposição, sei que é uma questão de grande importância, que merece todo o respeito e deve ser tratada da melhor forma possível. Por isso mesmo não vou aqui fazer promessas eleitoreiras, dizer que vou reduzir o IPTU, para angariar votos. Por outro lado, você pode ter certeza que nós vamos conversar com todos os setores envolvidos nessa questão e buscar soluções que atendam de forma satisfatória suas reivindicações. Um aumento é muito improvável.
Estou enviando em anexo o meu plano de governo. São propostas concretas que serão feitas em nossa cidade. Nesse plano você pode confiar. Espero que lendo-o você possa ter uma idéia do que vamos fazer de melhor para Juiz de fora, e também verificar se, de alguma forma, a sua reivindicação está bem atendida.
Vamos com força total mostrar que Juiz de Fora tem futuro. Vai levantar a cabeça, sacudir a poeira e fazer a mudança acontecer com experiência e competência.
                                                                                                          Um forte abraço,
                                                                                                          Custódio      

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Versos febris


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A manhã que me aquece
a solidão úmida desaparece
somos agora filhos do mesmo prazer
somos elos da mesma corrente
perdemos o que nunca conquistamos
morremos sem a experiência da vida
fomos enterremos sem  o corpo
uma mesa que vira
uma fúria calculada
um intenso além do breve
insatisfação além da greve
soldados marchando na escuridão
os lumes dos tiros que me atravessam o pulmão
não sinto nada
em minha absurda indiferença
não sinto nada
não sinto seu corpo
não sinto paixão
não tenho dúvidas
 não tenho ambição
não vejo sentido
quando vago na contramão
não vejo o vazio
quando fazem meu corpo ungido
quero morrer
quero seu corpo derreter
com o ódio que tempera meus desejos
quero ver seu corpo na terra
devorado pelos vermes amigos
quero ver seu sofrimento
quero ver sua corrupção
moral, sentimental, social
quero ver seu fim, sua inglória
construir de seus ossos
o meu templo de salvação

o meu palácio, meu Taj Mahal


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O valor da amizade



O ano era o de 2007. Alguns dias antes ou depois do meu aniversário. Não importa a data exata. O importante foi a ligação dela, dizendo que não estávamos mais juntos. De imediato, megulhei num abismo sem fim, rodeado pelas sombras e pelo nada. A situação se agravou ainda mais a curto prazo, pois meu antigo emprego, com sua escala calcada na mais absurda exploração, me afastou daqueles que pensei serem meus amigos. Do mar de certezas, me sobrou apenas o deserto acre das dúvidas e da angústia.

Pela primeira vez, minha vida se chocava contra o profundo sentimento de estar só. Nas raras horas de folga, nenhum telefonema, nenhum convite. Nada. Nas festas e nos encontros, meu nome era esquecido. Para alguns, foi como se eu nunca tivesse existido. Essas dores, particulares e íntimas, me ensinaram a entender a importância de uma amizade sincera, de uma presença voluntária. Minha família e pessoas queridas não se afastaram. Não me abandonaram. Apesar desse apoio fundamental, tive de encontrar por mim mesmo os atalhos para escapar desse labirinto. Tive de rastrear as chaves e escancarar as portas.

Escrevo sobre isso porque me lembro com saudade e aflição de uma amiga. Ela não falava, não me ligava nem me acolhia nos braços quando eu enfrentava a tristeza. Mas ela estava sempre ali, sincera, fiel e carinhosa. Sempre disposta a dar o melhor de si para que sorrísemos. Era um ser incrível, generoso e repleto de docilidade.

Em um ano ruim (2009), de colheitas malditas, ela foi carregada pelos anjos dos ceús. Tornou-se um deles, pois carrega consigo todos os pré-requisitos para o cargo. Minha amiga deixou uma lacuna em aberto, um espaço em branco que não pode ser preenchido. A partida dela me fez lembrar de toda minha via crucis, na mais amarga solidão. A partida dela me fez entender como é bom amar e ser amado, ter amigos e compartilhar alegria. Tudo isso derrama lágrimas sobre meu teclado, mas não me impede de reverenciar essa grande companheira, imortal em nossos corações e pensamentos.


Te amo, Grandona. Amigos e pessoas queridas, amo de peito aberto todos vocês. Todos estão na minha alma e nas minhas lágrimas.