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terça-feira, 16 de julho de 2013

Anjo de patas


Um dia, aquela cachorrona enorme, com pelos que voavam pelos cômodos da casa, entrou na cozinha, bem na hora do almoço. Imagina aqueles pelos caindo na comida, nas panelas e nos talheres? Não fiz de rogado, dei-lhe um cutucão e a danada saiu de cena toda aborrecida, pois vinha toda alegre e cheia de amor e acabou enxotada. Através de seu semblante canino, percebi que tinha se entristecido. Não dei bola, afinal, ela é só uma cachorra, enorme, claro, mas só uma cachorra que logo esqueceria o fato. Depois disso, cada vez que eu chegava, ela apenas me endereçava um olhar vazio e sem graça. Não mais abanava o rabo e pulava, com aquela alegria de cão. Só espiava e abaixava as orelhas, batendo em retirada. Demorou uma semana, ou mais, para que eu recuperasse a confiança da gigantona. Foram necessários passeios, mimos e comidinhas fora de hora para que ela voltasse a ser minha amiga (ou amigãozona, para quem conhece aquele desenho do Discovery Kids.). Bom, depois disso, vivemos felizes para sempre (sempre foi até o falecimento dela, pena os cães viverem tão pouco), sem mais cutucões ou expulsões. Isso me revelou o quanto os bichos são sentimentais e sensíveis, o quanto são especiais e fofos. Quer saber? Acho até mesmo que no coração deles cabe muito mais amor do que no nosso. São sinceros e de uma ternura intransitiva, enfim, são anjos de quatro patas e língua de fora.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pérolas III


Na dor, somos iguais, banais e suburbanos, dramáticos e hiperbólicos. A maior dor do mundo é a dor que cada um carrega no coração.
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É na sombra da madrugada que eu vislumbro o verdadeiro amanhecer.
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Nossa noite acabou sem sabermos quem ganhou o jogo, nossa noite acabou sem sabermos para onde fomos.
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Uma manhã fria requer corações aquecidos. Abracem e beijem aqueles que vocês amam. Da vida, só se leva os sentimentos compartilhados.
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Ela dormiu e ressoou baixinho, enquanto meus olhos ainda insones se embebiam de maravilhosa visão. Foi o paraíso de um sonho acordado.

Pérolas II


Que dia estranho, tudo parece ainda fora de lugar e de estação. É como sentir frio no Saara ou calor na Sibéria. Estou exilado de algo meu.
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Não seria ruim você do meu lado, com sonhos a mão e beijos engatilhados. A distância não assassina o desejo, potencializa-lhe o fogo.
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Tudo que é fugaz volta para o ponto de origem, assim como a morte volta para a vida e o fim, para o começo.
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Foi sem querer que roubei seu coração e monopolizei seus sonhos. Foi sem querer que me apaixonei por você na busca pelo que perdi de mim.
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A paz traz felicidade, mas nos anistia do espírito investigativo que só a realidade crua nos imprime.
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Um dia seremos todos iguais e nos sentiremos estúpidos por todo preconceito e sangramento inócuo.

Pérolas I


Feliz, mas feliz sem pressa, sem correria, sem exposição. Feliz por espírito, mais por dentro do que por fora. Feliz por ser quem eu sou.
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Se você me beijar, não vou deixar de ser sapo, mas a tratarei como uma princesa.
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Se um dia o Céu desabar sobre nossas cabeças, você ficará muito feliz por estar no Inferno.
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Não espere a reposta para fazer a pergunta, não espere o beijo antes de ir embora, não espere a verdade onde só se escutam mentiras.
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Uma mulher bonita é veneno que enlaça nossas entranhas e nos sufoca sob névoas de luxúria e torpor.
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Derrube seu castelo de cartas e guarde os ases na manga. Serão úteis um dia.
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Faça o melhor sempre esperando o pior. Esteja de braços abertos para as tragédias e as trapaças. O mar de rosas é cheio de espinhos.

Sinfonia silencial


Esse sorriso é a metáfora perfeita, a singular sinfonia entre significante e fato, é um coração em forma de lábios, uma delícia que se prova com os cinco sentidos.
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Nem sempre se chora com os olhos, nem sempre seu choro vem na forma de lágrimas. A alma pode sangrar cegamente, sua dor pode ser invisível e silencial!!!

Sangue e fogo


Não sei chorar sangue nem cuspir fogo. Sim, sou tolo. Nada tenho de especial, nada tenho de anormal. Eu me olho no espelho, mas só me vejo nas sombras. Não preciso me esconder, já sou invisível. Mas isso não é vantagem, isso não é malandragem. Se eu olhasse as garotas se trocando, se eu espiasse os garotos se tocando. Nem isso me tornaria legal. Essa é minha sina, tão perto, tão longe. Diante de seus olhos, mas invisível para seu corpo. Se eu pedir um beijo, vai me faltar coragem. Se eu lhe mandar uma carta, o extravio é certo. Enfim, fico e me calo, com esse doce salgado de não conseguir um pedaço que é seu, de não conseguir arrancar aquilo que, um dia, por profecia, deveria ser meu.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Unhas e amantes


Ontem, fui cortar as unhas dos pés. Era noite, quase dez horas. Enfiado no banheiro, empunhei o cortador e ataquei minhas garras que, àquela altura, já estavam enormes e afiadas. Demorei a apará-las, pois fui até os cantinhos e as cortei de forma a mantê-las arredondadas. Findo o serviço, tomei uma prolongada e revigorante ducha. Depois, ao me secar, fiquei pensando em um texto do sensacional Fabrício Carpinejar. Não sei ao certo qual dos textos, mas era um em que ele diz que homem que corta unhas dos pés é envolvido com amantes. Será mesmo? Não poderia eu estar me lapidando para quem eu amo e me merece? Não poderia eu estar me conservando para um relacionamento feliz e estável? Esqueço isso, enquanto calço um tênis e visto um casaco. A madrugada me aguarda e, querem mesmo saber?, o Carpinejar tinha toda a razão.