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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Fria e virginal


Vem, se joga, tira a roupa e me devora. Faz de mim seu vampiro, seu lobisomem faminto. Vem, me devora, me chama de mal e se agarre aos meus pés. Quero sua boca em meu corpo, quero que seja a bruxa dos meus contos. Vem, me enlaça, me amordaça, escraviza meus espasmos, toma de mim os orgasmos. Sei que quer, sei que gosta. Sua língua nos meus olhos, seus dentes me mordendo com ódio. Você é minha berlinda, meu cadafalso, minha deusa medieval. Quero ressonar e suar sangue na sua palma de cristal. Quero pegar fogo, arder de enxofre por seu jogo. Vem, me maltrata a carne, tortura meus ossos e infunda meus miolos. Quero sentir cólera doentia, prazer insano e cruento. Quero rasgar a seda e sorver seu caldo. Quero meu corpo despedaçado, quero minha garganta arranhando seus cabelos. Não demora, não me droga. Apenas venha e me quebre contra a parede, a cama e os tijolos. Esse dia, essa explosão, tudo é fruto e perversão, é toxina que forjamos com nossos óleos e faíscas. Vem de nós, desse pantanal, o apocalipse, a indecência, a fome fria e virginal.

Papo com o Diabo


Um drink para o Inferno? Hoje eu topo, hoje eu aceito. Descer ao solo maldito, bater um papo com o Diabo. Rodar as mesas, quebrar garrafas, me meter em encrencas. Se esquentar, tiro a camisa. Se esfriar, arranjo companhia. Aqui não é brinquedo. Alguns sentem medo, outros se divertem. O negócio é entrar na dança, ser criança e deixar rolar. O bicho pega e a farra come. Aqui, mulher dos outros é souvenir. Traição? Ninguém esquenta com isso. Afinal, chifre na cabeça e fogo no rabo são o que não faltam por aqui.

Já foi


Perdeu seu tempo. Procurou nos lugares errados, nos idiomas que não falo. Eu estava ali o tempo todo, só esperando um gesto, um recado. Mas você não percebeu. Você quis mostrar para os outros, deixar impressões paralelas e não pensou no que realmente queria. Suas lágrimas ao telefone me comovem, me arrancam o coração. Mas agora não posso mais. Tenho uma família, pessoas que são minha nova vida. Não posso largar para trás, deixar de lado. Agora já foi. Apenas fica a lembrança de algo lindo e sincero que só aconteceu nos meus sonhos.

Aquele mesmo lugar


Quando rola, é intenso e especial. Não tem explicação, é paranormal. Só com você me sinto assim, tão feliz que até passo mal. Se fosse ciência, seria a fórmula do nirvana, a cura do câncer terminal. Se eu soubesse decifrar o que sinto, poderia proclamar meus sentimentos, entender o que se passa nos meus melhores momentos. Mas tudo bem, não vou te forçar, não vou me viciar. Eu quero mais é que seja esporádico, para não ficar normal, não ficar chato. Quando quiser me procurar, saiba que não fugirei. Estarei esperando sempre naquele mesmo lugar.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ao Engenheiro


Um engenheiro me avisou que a medida de amar é amar sem medida, que é inútil ter certeza, que talvez eu esteja correndo do lado errado. Esse engenheiro me deixou com ciúme porque disse, meu amor, que seus lábios são labirintos, que já te conhecia de outros carnavais, com outras fantasias. Ele mora longe, mas mandou carta para avisar que toda forma de poder é uma forma de morrer por nada, que tudo passa. Esse cara é foda, mesmo de longe fica mandando mensagens, como se fossem garrafas vazias ao mar. Ele disse que não chegou até aqui para desistir agora. Mas se você perguntar por ele, vão dizer que ele anda estranho. Cortou os cabelos, desfez a banda e pegou a estrada com outro cara. Ele agora se diz de poucas vogais, que foi sincero como não se pode ser. Ele diz que é um erro assim, tão vulgar, trocar vidas por diamantes, ser a banda de uma propaganda de refrigerantes. Hei, Engenheiro, eu também não esquento a cabeça, por mais que a gente cresça há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender. Eu também não gosto de ver o meu rosto antes do anoitecer. Engenheiro, levamos uma vida que não nos leva a nada, levamos muito tempo pra descobrir, certo? É, rapá, sem você (é foda), aí você precisa de alguém que te dê segurança. Eu também. Engenheiro, pra ser sincero, não espero de você aperto de mãos nem que sejamos bons amigos. Olha, uma luz se apaga no prédio em frente ao meu, será que é ela? Talvez, aí me lembrei: "sempre em frente" foi o conselho que ela nos deu. Cara, quer saber? Que se foda. Afinal, há mais de mil destinos em cada esquina e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar. Então, Engenheiro, o que nos trouxe até aqui:  medo ou coragem? Eu não sei, mas eu vou é viver à margem e correr na contramão. E, no fim, que a noite nos traga alívio imediato até porque não somos, meu amigo, nada mais do que frágeis testemunhas de um crime sem perdão. Seríamos mesmo as testemunhas ou os suspeitos de um crime perfeito? Engenheiro, nem eu sei mais para onde ir, só quero que seja longe demais, longe demais das capitais. Isso eu sei porque, nessa cidade em chamas, as chances estão contra nós e sempre estarão. Mas eu não vou fraquejar. Sabe por quê? Porque minhas raízes estão no ar e minha casa é em qualquer lugar.

Amor demais


Ele dizia ser amor demais. Amor demais para corresponder. Cada ligação ignorada, roubava dela uma lágrima dorida. Cada encontro desmarcado, fazia dela um coração despedaçado. Ela foi aprendendo a domar os sentimentos, a adestrar os instintos. Depois foi ela quem ignorou, quem desmarcou. Ele surpreendeu-se, foi dominado quando achava que era rei. E logo ela encontrou onde exercer o tal amor, onde encontrar correspondência. Ele agora lembra, triste, dos dias em que amor lhe era tanto que parecia sufocar; hoje, ele chora por não ter a quem amar.

Foice dos pecados


Quero gozar do seu sabor, lamber as suas lágrimas e chupar o sangue do seu mal. Seus beijos são meu eclipse, minha paixão imoral. Ser seu vampiro e carrapato, é como ter a foice dos pecados. A eternidade é toda nossa e Lua espera por nós. De lá, faremos um balneário que é só nosso, todo seu. Posso voltar às origens, mas igual a você não tem igual. Talvez seja blasfêmia, eu nem sei. Juro que poderia ser um santo, bondade-luz, se você assim me quisesse. Mas quiseram por nós e somos do mal. Venha comigo, esta sombra que abrigo é tudo que desta noite precisamos. Vamos percorrer as esquinas, vamos abrir as feridas. Neste mundo, ainda muito temos a corromper.