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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Doces perigos


Os olhos espelhando-se mutuamente. O prazer aberto em fenda, irrefreável. Os movimentos, as ondulações. O vai-e-vem explosivo e sinérgico, algo que vai além da lógica, do racional. O gozo em ondas e formas múltiplas, em constantes e variáveis pulsações. Sei que pode me sentir, sei que pode me controlar. Eu apenas suspiro e me entrego ao seu jogo. E você se joga, de cabeça, se lança e volta, cada vez mais constante, mais rápido, mais impactante. São espasmos e grunhidos, são fogos de artifício. Sei que vou, sei que já fui, sei que vou mais uma vez e tantas outras mais. Você sorri, me ironiza, demonstra seu poder e que me tem na palma, nos lábios, nos recônditos. Uma curva de sua silhueta me envolve e, mais uma vez, as trevas de seu edredom me enlaçam e me lançam ao abismo de seus doces perigos.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Álgebra


O amor é um todo, não são pedacinhos que se encaixam, não é um castelo de Lego. Se quiser amar alguém, não ache que isso será feito apenas com gentilezas, agrados e beijos. O amor é grandioso, é algo estonteante, que pega fogo. O amor arrebata, toma por assalto corações desatentos e pessoas desavisadas. O amor é um tombo feio, daqueles que machucam a alma e deixam sequelas. Portanto, cuidado. Trazer o amor de alguém para si requer algo a mais, o óbvio leva apenas ao campo batido da amizade, do coleguismo. Uma pessoa não se interessa por quem não a surpreende, por quem não a comove, por quem não lhe traz para fora da zona de conforto.  

Esse é o segredo dos cafajestes e o ponto fraco dos bonzinhos. Bonzinho é bom, mas é calculado, previsível. O cafajeste não. Cafajestes são paraquedistas, velocistas, malabaristas. Eles vão pelo avesso, confundem o radar das garotas e só param quando já fizeram um pouso seguro em seus miocárdios e colchões. É assim que funciona. Eles chamam para uma volta, mas acabam promovendo um world tour, conseguem tirar o fôlego e a roupa das mulheres de uma forma tão despretensiosa que até parece que aconteceu por acaso. Os cafajestes, então, entendem as mulheres? Não, isso porque são incapazes de levar uma relação séria a longo prazo, sem traumas ou hematomas. Mas entendem de amor, ou melhor, do que leva garotas a se apaixonarem por alguém. Logo, percebe-se que paixão é combustível, lubrificante das engrenagens envolvidas em um relacionamento.

O que cafajestes não sabem é que o amor é como o fogo, precisa de alimento para ser mantido e, nisso, eles são péssimos. Sua adolescência tardia impede que os vínculos sejam fortalecidos e renovados. Amor, então, precisa de bonzinhos, de gentilezas, agrados e beijos. Sim, o amor precisa também de amizade, precisa de companheirismo, cumplicidade, mãos que se ajudam. Viu como não é simples? Pessoas querem emoções fortes, devaneios, mas, em algum momento, também querem colo e aconchego. Essa álgebra dos sentimentos é delicada. Requer ondas agitadas, mas também calmaria; requer beijos de língua, mas também beijos na testa.


Amor é um conjunto maior, habitado pelas paixões, pelos sentimentos, pelas carícias e carências. O balanço desse todo no espiral das consciências é que torna o produto final como é. E essa equação pode levar a tantos resultados: felicidade, alegria, tesão, delícia, tristeza, decepção, frigidez, mentira, amor, desamor, harmonia, melancolia ou tanto mais ou tanto menos Eis o amor, um elo, um selo, um todo que de nós tanto faz e tanto traz, um todo que pode ser uma mágica, uma solução ou apenas uma desilusão, um convite ao recomeço. De toda a forma, de todo o jeito, entender o amor e o que ele provoca, como nos sufoca ou nos invoca, nos ajuda a dar um novo passo, sem o peso dos medos e dos choques que o passado legou.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Apocalipse


A cama dele era larga, king size, sempre coube muita companhia, muitas meninas. Era considerado um apocalipse sexual. Alguém que faz das noites um exercício incendiário, de pura e imoral luxúria. Colecionou amantes, ficantes, peguetes e piriguetes. Foi um deus em carne, um lobo faminto e insaciável. Os anos não sossegaram seu ímpeto, mas seu corpo sim. Algumas dores pontuais e localizadas se tornaram mais intensas e crescentes. Era o pior possível. Um câncer. Tratamento longo e excruciante. Quimioterapia, remédios, internações... Era um filme de terror e drama que se tornava real. Era preciso ter fé e esperança para sair daquela chama. O diabo lhe convidada para a dança e ele só queria escapar. Em seu leito, poucos amigos e alguma família. Era a única gente que com ele se importava. Muitos tinham seu contato, sabiam de seu estado, mas não apareciam. Fingiam não saber de nada, desconversavam quando o nome do enfermo era citado. Um gigante esquecido, talvez um Great Gatsby revivido. Abandonado, mas também fortalecido por aqueles que lhe tinham como querido. A improvável recuperação aconteceu. Seu organismo enfrentou o mal e o extirpou. Foi um milagre científico. Mas não para ele. Jamais se esqueceu de cada segundo daquela batalha, uma guerra mundial travada no íntimo de seus tecidos. Deixou o hospital como alguém que nasce das cinzas, renasceu em seu próprio cadáver. Teria muito a viver? Como seria o futuro? As festas, as bebidas, as mulheres ou a paz das companhias valorosas que lhe sustentaram em luta? Poderia conciliar os dois ou renunciar a ambos?  Ele respondeu a tais questionamentos com um sorriso e partiu em direção ao nada, sabendo bem o que procurava. 

Sujar as mãos

A vida pode ser quietude, passividade e sossego. Pode ser à beira mar, com sabor de pêssego. Mas vocês conseguem viver assim? Vocês conseguem largar tudo, se alienar do mundo e partir por aí? Alguns sim e muitos com certeza. Mas eu não. Jogo no time dos incomodados, dos inconformados, daqueles que se perturbam com o status quo. Dizem que os incomodados que se mudem. E estamos nos mudando, mas levando o mundo junto conosco. Sempre acreditei na transformação, na necessária mudança. Não é mudar por modismo, para criar tendência. É mudar por algo e por alguém. O modelo atual ainda é invasivo, excludente, deprimente. Serve para poucos e não para todos. Aí, eu enxergo a obrigação da mudança, da reorganização dos fatores. Seria ilusão e ingenuidade querer tudo diferente de forma expressa, a jato. Porém, dá para fazer, dá para mexer a massa, bater o concreto e encaixar os tijolos. Precisamos da coragem para sujar a mão de graxa, fuçar nas engrenagens. Não quero que todos tenham camaro amarelo, mas sim que haja um teto para cada um, brasileiro ou não. Quero que comida seja algo natural no dia a dia, quero que as empresas produzam, empreguem e cresçam. E também quero que o trabalhador opere, prospere, mas que também descanse. Quero que as oito horas se tornem seis, para que mais pessoas possam trabalhar e consumir. Quero que o salário médio e o mínimo não ensejem sobrevivência, mas uma vida em que exista o mínimo de conforto e recreação. Não é um sonho e sim uma meta. Talvez a metade que ainda falta a fazer. Não sejamos alarmistas. O país melhorou, progrediu, incluiu, mas ainda não o suficiente. Não atribua isso a Lula, Dilma, FHC, Itamar ou Collor. O que fez o Brasil melhorar foi a democracia, com eleições livre e diretas, com imprensa livre, com pluralidade de partidos e ideologias. Sei que as pessoas ainda se confundem e confundem fazer político com benefícios pessoais. Tudo bem, sem problema. A mudança vai varrer para longe toda essa sujeira, toda essa corrupção de valores e de caráter. Apenas tenhamos em foco que não se pode parar, as ruas não podem se acostumar ao silêncio cidadão e ao ruído dos criminosos. Somos nós, é nossa responsabilidade tomar as esquinas e avenidas e fazer a roda viva girar. Não se cale, não se torne lobo de sua própria hipocrisia, a marcha, a dos democratas e civilizados, deve continuar. O mar continuará onde está, continuará à espera depois nossas lutas e embates.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Minha dor


Tenho uma dor no peito, uma dor que hora cresce, que hora se acalma. Uma dor que me acompanha por dias, meses e anos. Ela começou quando eu nasci, quando ganhei o mundo e um registro oficial. De tantos nomes, tive um em especial. Dali em diante, fui acumulando feridas, lesões e hematomas. Tudo se escondendo e se alojando nas brechas cardiológicas. Agora, nem me lembro o quanto de dor eu carrego, mas vida inteira pode ser contada a partir dela. Ela explica quem sou e como sou, explica o que me move e o que me fere. Essa dor passa por minha família, meu amigos, meus amores, ela também atravessa desafetos, antipatias e desilusões. Tudo por uma noite, tudo para não lembrar mais. Mas eu me lembro e me lembro também da bebedeira, das festas, das bocas, das camas e da manhã seguinte. Isso também vai parar naquela dor no peito. Na verdade, minha vida é uma dor e o que sou resulta desse atrito. Queria apenas esquecer quem eu sou, mas, para isso, teria que abrir mão do meu caminho, do meu orgulho. Eu teria que recomeçar, então, nesse ponto, eu me lembro. Terá sido assim tão ruim, não terá essa dor me ensinado nenhuma lição, não terá essa dor sido acompanha de tantas alegrias e emoções? No meu caso, bem especificamente no meu, a dor arrastou um pacote, que inclui as maravilhas e as delícias de ser quem eu sou, meio louco, meio tonto, mas plenamente feliz. Quer saber? Deixa quieto, minha dor me entende e com ela convivo bem, não é a mais harmoniosa das relações, mas, juntos, crescemos, aprendemos e evoluímos. Talvez sejamos nossas caras-metades, os dois lados do mesmo mural. Enfim, somos felizes e doídos e isso nos basta.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Pedaço


Eu não vou roubar você de si mesma. Eu não posso te soltar, se você nem está presa. Eu não posso perder o que nem tive. Eu tive de você atenção, palavras doces, algum carinho e poucas noites. Sei que você não estava lá, que não se entregou, que não abriu suas asas. Tudo bem, tanto faz. Não precisa ter medo, me evitar. Não sou ameaça nem nunca fui. Apenas tentei ser especial para você, fazer você me ver como desigual, como alguém para quem você aponta o dedo e diz: "Ele é o cara". Quis ser seu cara, mas nem passei da metade da página. Sem problema, eu sei que tentei, sei que não faltou meu esforço. Não era para ter sido comigo, isso eu entendo. Apenas não se desfaça do que vivemos, do que eu senti. Para mim foi importante, então não me negue, não me apague. Apenas me aceite como um cara determinado, que fez parte da sua vida e agora não faz mais. Fiz de tudo, me doei por inteiro e doeu por algum tempo, mas agora não mais. Então, de boa, apenas aceite que da sua vida levo um pedaço e o orgulho de ter sido uma pessoa que esteve, de verdade, ao seu lado.

Beijo secreto

Um beijo
Silêncio
Dois olhos inertes
Encarando-se em dúvida
Não era para ter acontecido
Não foi ruim, mas foi trágico
Ela estava na pior, desiludida
Ele era um velho amigo, um querido
Foi socorrê-la, dar consolo
Depois de mais um término
Mais um fim de namoro
Namorada ele tinha
Mas isso nunca foi problema
Eram só amigos, não passava disso
Mas naquela noite passou
A relação passou a ter novo sentido
Tudo muito confuso, embaralhado
Ele agora era infiel
E ela uma pessoa inconfiável
Não podiam assumir nada
Nem mesmo mais a amizade
Era estranho, sombrio
Quase uma frase sem sentido
Continuavam o carinho, a cumplicidade
Somado a isso um novo elemento
Um novo inesperado tormento
Ele não contou para a namorada
Manteve o relacionamento
Ela não mais quis vê-lo
Era prudente manter distância
Apenas se falavam por internet, telefone
Não mais que isso, sem mais compromisso
Mas aquele beijo não saía da memória
Não era amor, paixão, rompante
Foi apenas fraqueza, carência, momento
Mas, mesmo assim, muito significava
Foi o começo do fim para os dois
Foi uma nova forma de se enxergarem
De entenderem que por trás da amizade
Estavam um homem e uma mulher
Duas pessoas que não conseguiam mais separar
Duas pessoas que não podiam mais evitar
E, assim, mantiveram o beijo secreto
O beijo que revelou que eram amantes
Não entre si, mas do que tinham
Amavam a amizade e a atração mútua que exerciam
Mas esconderam tudo, como adolescentes assustados

E assim tudo ficou: nublado, diluído e muito mal resolvido