Eu
poderia dizer tanto, mas qual o significado das palavras nessas horas, que
diferença faria? Não sei dizer, talvez um sentido protocolar, um indicativo de
que nos importamos minimamente. A verdade, porém, é que ainda nem sei como
reagir. É como perder a noção de tempo e espaço, sem sair do lugar e com o
relógio no pulso. É como perder o sono e, mesmo assim, continuar na cama. Essas
dores são o que desafiam o senso comum e nos tornam tão iguais. O sofrimento
nivela por baixo, nos rebaixa aos instintos e a nossa ascendência primata.
Agora, eu vejo como o luto e a luta estão próximos. Lutamos para manter a
dignidade, os pés no chão, ainda que o mundo tenha acabado de desmoronar.
Lutamos para receber cumprimentos e condolências, sendo que nossa vontade é
também de ir para o fundo da cova. A sensação que desabrocha é a de que devemos
nos manter eretos, talvez porque seria esse o desejo de quem se foi. Enfim,
nessas horas, ligamos o piloto automático e nos deixamos guiar pelo acaso. O
coração sangrento precisa se recuperar, mas quem nos dá o tempo para fechar as
feridas e as sangrias? É tudo muito raso quando se trata da lembrança que arde,
queima e maltrata. É preciso que nossa cabeça não se solte do corpo, embora o
peso para que isso ocorra ganhe uma força motriz descomunal. Se de pé
resistimos, é sinal de que ainda não há descanso para quem fica. É preciso ir
para algum lugar, mesmo que seja de preto e com os olhos encharcados.
Esse blog é uma gota de meu sangue, um plasma de meus sentimentos. Poesia, humor, política, dor, frustrações. É um espaço onde sou o que deveria ser ou o que nunca fui. É um lugar onde sou um personagem e uma entidade em vida. Sou um rio e também as pedras. A angústia perdida ou um sorriso espontâneo. Sou eu em múltiplas formas ou em forma alguma.
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terça-feira, 26 de novembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Seja o meu amor
Eu
me apaixonei por você. Perdida e enlouquecidamente. Você sempre foi gentil,
especial e cavalheiro. Queria a mim como qualquer homem quer, mas queria com
docilidade, esperança e jeitinho. Você sabia me dizer algo engraçado, sabia
apertar meu corpo contra o seu, saiba me fazer um carinho sem que eu pedisse.
Você sabia tanto sobre tanta coisa. Sua maneira tímida e, ao mesmo tempo,
confiante de discorrer me deixava em estado de hipnose. Na dúvida, era com suas
palavras que eu me aconselhava, no frio, seus braços me cobriam. Era tanta
coisa boa que nem sei por que acabou. Deveria ser para sempre, você comigo, nós
dois juntos. Mas você não quis assim, com a voz embargada, o choro retrancado,
me disse que queria conhecer o mundo e outras pessoas. Eu não aceitei, eu não
quis, mas você se foi mesmo assim. Agora, fico aqui com essas lembranças
ingratas, esses presentes de grego. Quanto mais tento esquecer, mais me lembro
e lamento. Eu sei que não vou morrer de saudade, nem quero sua piedade ou que
sinta pena. Não, eu vou sobreviver a isso, vou reconstruir o que preciso e
encontrar um novo alguém assim como você. O que peço, um último pedido, é que
você não mude, não se destrua. Seja sempre aquele rosto iluminado e delicado
que eu conheci. Não se deixe influenciar pelas maldades desse mundo. Mantenha
sua essência, mantenha-se especial. Desse modo, você sempre será alguém de quem
lembrarei com amor e saudade no coração. Desse modo, você sempre semeará o bem
por onde passar. É isso que lhe desejo, que seja sempre esse coração sincero e
irretocável, essa criança que a tantos contamina. Que seja o meu amor, ainda
que não mais em meus abraços apertados.
Formatação
Ela decidiu se formatar. Decidiu formatar o próprio coração e
nem me deixou fazer o backup. Por telefone, iniciou o processo. Antes mesmo que
eu pudesse tentar reverter a desinstalação, ela pegou as malas e se mandou. Foi
para algum lugar além do Atlântico e eu fiquei aqui, segurando o pranto, com
DVD e pen drive à mão. Com o avanço do processo, fui me sentindo velho, vazio e
acabado. Aos poucos, o disco rígido onde eu costumava salvar meus arquivos se
tornou um espaço em branco, livre para novos registros e programas. E agora?
Onde poderia me salvar, de onde eu recomeçaria a operacionalizar? Aí, eu
entendi, eu também tenho meu HD, eu também posso me formatar. E assim fiz,
apaguei cada memória, cada foto, cada filme a que assistimos juntos. Foi
doloroso no início, sair de mim, refazer meu Windows, mas deu certo. Com o
disco limpo, pude, em mim mesmo, reinstalar meus arquivos e procurar meus
próprios programas, baixar os mais recentes navegadores. Saudade já foi, agora
tenho que atualizar minhas extensões, otimizar minha performance. E assim venho
fazendo, fugindo dos meus antigos favoritos e dando chance a novos endereços e
contatos na barra do meu browser.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Palavra riscada
Venha,
venha, nós já estamos indo e você também. Você não vai ficar aí parado,
estático, feito estátua. Não é por não
ter para onde ir que você deva ficar. Sei que é difícil, mas não impossível. Aja,
reaja, faça acontecer. Tudo só acontece quando você põe as mãos na massa e os
pés na jaca. Não deixe que pareça uma desgraça, transforme o revés em
oportunidade, em solavanco para a grande mudança. Sei que você queria
continuidade, plano de carreira, estabilidade. Mas a vida é gangorra, um
balanço de Deus, então, lá vamos nós aí de novo, pendulando, balançando de um
extremo ao outro, sem cair ao chão. Parece complicado, mas nem tanto, nosso DNA
é de orangotango, sabemos sacudir em árvores, voar através dos cipós. E nem
venha dizer que já esquecemos como se faz; é como andar de bicicleta, podemos
até ficar enferrujados, desajustados, mas jamais desaprendemos. Viver é isso, é
correr riscos, colocar o pescoço a perigo, mudar de cidade, rever de quem temos
saudade e abrir novas portas.
Se
por um lado, a vida nos ensina a preservar o que temos de mais valioso; por
outro, ela nos mostra que a forma de sermos mais vulneráveis é ficando
paralisados, congelados nas certezas e garantias que, de fato, nos garantem
muito pouco ou quase nada. Por essa razão, não tenha medo, não tenha receio.
Mais do que botar a cabeça para fora da toca, mude de toca, mude de hábito.
Seja como for, ainda seremos nós mesmos, aquelas pestes insistentes e irritantes, que malham o ferro frio e esmurram as pontas de faca até que os
sinos dobrem, as vacas tussam e a felicidade seja muito mais do que a palavra
riscada em um dicionário perdido.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
A paz de Júlia
Seu
nome é Júlia Rebeca. Sim, você se chama Júlia Rebeca e é uma jovem de 17 anos. Fã
de Miley Cyrus, você tem planos e sonhos. Você é ingênua, acredita nas pessoas
e as mede por sua própria inocência. Talvez, algum dia, você tenha se reunido
com amigos e bebido um pouco além da conta. Mas tudo bem, afinal, eles são seus
amigos. Sob efeito de álcool, você acaba beijando um de seus amigos, é
engraçado, todos riem. Logo, todos estão brincando de salada mista e muitos
beijos acontecem. Na explosão de hormônios e na empolgação típica da
adolescência, alguém tira a roupa. O gesto se repete e não demora para que
todos estejam nus. Dos beijos, acontece sexo, a bebida e o êxtase do hedonismo
levam você a se entregar mais de uma vez e a mais de uma pessoa. Hoje, há
câmeras em tudo e todo lugar. Inevitavelmente, tudo é filmado. Mas todos se
prometem que nada sairá dali, que tudo é um pacto de amigos, uma diversão
confiável. Combinou-se que vocês veriam o filme, ririam de tudo e, depois, ele
seria deletado. Você está tranquila, seus amigos jamais a colocariam em uma
fria dessas. No dia seguinte, você acorda de ressaca e um pouco arrependida por
ter feito tudo aquilo. Mas tudo bem. Que adolescência não deixa marcas? Que
juventude não traz arrependimentos de uma vida explorada intensamente? Você vai
levando, um dia de cada vez, alegrias e aborrecimentos se alternando, como
sempre. Mas não dessa vez. Alguém liga para você. A voz aterrorizada. Uma
timidez muito estranha. Logo, a notícia. O despretensioso vídeo está na
internet, se espalhando pela rede, ganhando “curtidas” e sendo assistido por
milhares. O pânico toma conta de você. Como podem ter feito aquilo? Como podem
expor você a tanto? Mensagens e brincadeiras maldosas não param de chegar a seu
computador e a seu telefone. Piadas grosseiras, propostas indecorosas. Páginas
surgem com seu nome, anunciando Júlia Rebeca como a nova estrela do pornô
caseiro. O desespero toma conta. E sua família? O que diriam, como aceitariam
isso tudo? Você é apenas uma menina de 17 anos, sem estrutura psicológica para
suportar um baque desses, sem ter onde se escorar. Não há a quem contar algo
tão íntimo sem ser julgada, escorraçada. E agora? Até mesmo o telefone
residencial começa a tocar sem parar. Novas piadas, xingamentos, ofensas de
pessoas que há um segundo nem sabiam de sua existência. O seu mundo começa a desabar
e você não tem força para sustentar os escombros. Não há para onde correr ou se
esconder. Sua família vai descobrir, vai expulsá-la de casa, cortar relações.
Seus amigos vão chamá-la de vadia, piranha e coisas piores. Acabou. Você fecha
a porta. Chora, se acaba em pranto. Acabou. Onde estão aqueles que prometeram
protegê-la? Estão escondidos atrás de seus celulares e tablets se gabando, se
divertindo, posando de garanhões. Acabou. Nesse enredo, são todos heróis e você
a vilã, a prostituta de luxo. Você chora mais, seus olhos quase saltam do
rosto. Acabou. Você respira, não quer conversar, então, se despede de quem
talvez ainda possa se importar com você. Deixa uma mensagem em uma rede social.
Quem sabe, algum dia, poderão entendê-la, poderão compreender a agonia que não
a deixa em paz? Acabou. Você respira pela última vez, o corpo tomba em um sono
profundo e irreversível. Finalmente, talvez, pela primeira vez em toda essa
história, irão tratar você como vítima, irão tentar compreender sua decepção,
sua angústia, sua aflição. Talvez haja um lugar melhor lhe esperando, com
pessoas em quem você pode verdadeiramente confiar.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Contando nuvens
Quero seu toque, seu
jeito, seu beijo. Tudo em você é especial e tem significado. Quero mergulhar em
seus braços, entender o seu passado para nunca deixar de ser o seu presente.
Quero que você diga que me sente, que me quer. É assim que eu gosto, você
comigo, amor a dois, puro e bruto instinto. Mas é claro que vamos além disso.
Não quero apenas noites a seu lado, quero também noites acordado e conversas ao
pé do ouvido. Quero que você saiba o meu cheiro e que goste dele como eu gosto
do seu. Quero um céu estrelado, quando nossos olhos se encontrarem. Não posso
pedir tanto, mas quero sempre mais. É meu vício, querer você sempre tanto,
sempre por demais. Se você gosta tanto quanto eu, então, venha, não demora. Não
precisamos adiar tanto tempo. Eu sei que não é urgência ser feliz, mas eu não
tenho paciência de esperar, se você já poderia estar comigo. Não há prazo nem
pressão, mas adoraria ter você aqui, bem perto, de coração aberto, contando
nuvens ou vagamente se lembrando do que acabou de acontecer.
Pessoa necessária
Desejo. Desejo que
sua semana seja feliz e seu dia, abençoado. Desejo que você plante amizades,
gentileza e gestos nobres, pois, assim, você colherá alegria e felicidade.
Desejo que sua família seja unida e amorosa, que a riqueza venha mais dos
valores do que das posses. Desejo que um sorriso se desenhe no seu rosto e que
não falte motivos para isso acontecer. Desejo a você tudo de bom. Mas não sou
ingênuo nem otimista além da conta. Sei que haverá momentos ruins, momentos de
dor e ausência. Quando essa hora chegar, desejo que você tenha força e
serenidade, fé e responsabilidade. Desejo que as dificuldades façam de você
alguém melhor, que elas sejam um aprendizado e uma forma de você valorizar o
que é importante. Desejo que você chore, se for o caso. Desejo que
você purifique sua alma, que deságue todos os sentimentos mal resolvidos ou
venenosos. Desejo que você saiba recomeçar, que saiba olhar para trás,
reconhecer que errou e seguir em frente. Desejo que você saiba perdoar e pedir
desculpas. Desejo que você saiba esquecer o que lhe fizeram de mau, não por
covardia ou para posar de superior; desejo isso, simplesmente, para que você
não aprisione em seu coração algo que não lhe será construtivo. Desejo, enfim,
que você viva plenamente, que viva todos os momentos, que você entenda o
presente que é estar presente e ter tantas pessoas a quem amar e tanto a fazer.
Desejo que você seja feliz, exatamente por ser quem você é, uma pessoa com
defeitos e virtudes, mas uma pessoa especial e infinitamente necessária.
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