Algumas pessoas não
são capazes de enxergar novos mundos, continentes e correntezas. Infelizmente,
estão ilhadas por seus preconceitos e medos. Podem viajar o mundo inteiro,
navegar os setes mares e voar por entre galáxias, mas, mesmo assim, serão
vazias e frias como noite de inverno. Isso acontece porque o calor não vem de
fora, mas sim de nós mesmos, de nossos amores, de nossas paixões e de tudo que
fazemos com dedicação. Isso faz com que uma existência de ostentação possa ser
tão sem sentido enquanto uma vida simples se torna um rosário poderoso de
experiências e de êxtases. Se ainda não entende o que digo, basta ver a
trajetória do homem de biografia mais relevante de todos os tempos. Ele era
simples, rasteiro, sem moradia fixa ou qualquer tipo de luxo. E, mesmo assim,
sua morte, sua mensagem e suas lições atravessaram milênios e milhas para
alcançar tantos corações e horizontes. Esse é o recado, o significado da vida
se inicia e se completa no mesmo ponto, em nossos corações e na honestidade com
que nos entregamos ao que fazemos. Sem isso, nada vai completar as lacunas que
nossos pensamentos carregam. E, no fim, teremos medo e nada vai nos satisfazer
por inteiro.
Esse blog é uma gota de meu sangue, um plasma de meus sentimentos. Poesia, humor, política, dor, frustrações. É um espaço onde sou o que deveria ser ou o que nunca fui. É um lugar onde sou um personagem e uma entidade em vida. Sou um rio e também as pedras. A angústia perdida ou um sorriso espontâneo. Sou eu em múltiplas formas ou em forma alguma.
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terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Infância
Nem deixou de ser criança e já quer
entrar na dança. Ei, preste atenção, isso não é brincadeira, não é para quem se
alimenta na mamadeira. Não ouse vestir a calça se nem saiu ainda da fralda.
Deixe com a gente grande o problema que é preocupante. Vá brincar com seus
joguinhos, fazer seus castelinhos de Lego, nós, os já crescidos, daremos conta
de tudo para que você não saia do ninho. Aproveite a sua infância, não tente
crescer antes da hora, eu digo, de verdade, crescer é perigoso e ficar velho
uma droga.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Paradoxo
Eu e essa mania
insuperável que tenho de me contrariar, de me contradizer. É quase verdade quem
nem minha própria sombra segue meus passos. Meus pés diferem o caminho, um vai
à esquerda, outro vai à direita. Minha razão sabota meu sentimento e meu querer
avança ou atrasa em relação ao fazer. Enfim, sou isso aí: uma criatura
desajustada, um ser em paradoxo. Um parafuso sem a porca ou, ainda, um corpo
sem alma (ou seria alma sem corpo?). Sei lá, se eu soubesse, nada seria tão
confuso nem eu seria tão desigual. Aliás, alguém viu por aí minhas roupas? Não
estou pelado, mas tenho certeza de que me esqueci de vestir algo. Ou talvez
tenha esquecido os sapatos. Bom, agora não importa. Só prometa não rir de mim.
Ah, pode rir sim. Não me levo tão a sério como acham, aliás, não me levo a
lugar algum. Isso é tudo sobre mim.
Flores de fogo
Flores
de fogo,
Acalmem
meu coração
Deem
a ele sabedoria e razão
Deem
a ele determinação e foco
Livrem-no
das armadilhas de sempre
E
dos erros que são insistentes
Equipem
nossos sentimentos
Com
um pouquinho só de paciência
E
algumas pitadas de ternura
Façam
de mim alguém melhor
A
gentileza com pernas e braços
Flores
de fogo, aqueçam o frio da solidão
Sosseguem
a aflição de quem sofrem
Sejam
a companhia de quem caminha só
É
sempre distante quando não temos nada
É
tudo escuro quando ninguém segura a lanterna
Flores
de fogo, abençoem as crianças e os idosos
Mostrem
a nós que a sabedoria de quem muito viveu
Combina
perfeitamente com pique de quem ainda vai aprender
Provem,
flores de fogo, que a esperança é a última morte
Que
o fim da linha, na verdade, só recomeça o jogo
Que
viver é sinônimo de ser feliz
Flores
de fogo, abracem os malditos
Revelem
que a desigualdade é só uma barreira
Uma
barreira que podemos superar com amor
Indiquem
o caminho para quem se perdeu
Sejam
o socorro para quem está prestes a desistir
Flores
de fogo, estamos prontos para verdade
Estamos
prontos para cumprir a promessa
Para
fazer valer a profecia de que por trás de tudo
Há
sempre o destino final, a plena felicidade
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Mas era dia
“...Faltou
luz, mas era dia, o sol invadiu a sala
Fez da
TV um espelho, refletindo o que a gente esquecia
Faltou
luz, mas era dia,
Faltou
luz, mas era dia...”
Composição:
Marcelo Yuka
Quantas
vezes, na sua vida, faltou luz durante o dia? Quantas vezes você se foca tanto
no problema e esquece que a solução está ali do lado? Quantas vezes você se
concentra tanto nos defeitos e negligencia os méritos? Quantas vezes você chora
a ferida e tarda ainda mais a medicação? A tragédia e o inesperado têm o poder
de nos cegar, de escurecer o óbvio. Nesse caso, como fazer, como proceder? Não
é simples, mas temos que enfrentar nossa tendência aos abalos e ao drama.
Devemos engolir o choro e tomar as providências. Devemos resolver o dilema para
depois travestir o luto. É assim que funciona.
Acredita-se
que, a partir de aconselhamento do Marquês de Pombal, o rei português tomou as
medidas cabíveis para contornar os graves problemas que afligiram Lisboa, após
brutal terremoto, em 1755. Mas quais foram os conselhos de Pombal? Simples, enterrar
os mortos (ou seja, enterrar os traumas do passado, evitar trazê-los à tona a
cada adversidade), cuidar dos feridos (isto é, resolver aquilo para o que ainda
há solução) e fechar os portos (em outras palavras, obstruir a passagem de
oportunistas e pessoas malévolas que se aproveitam das fraquezas alheias).
Como
se vê, a luz pode faltar, mas se lembre sempre de que o dia brilhará,
de que haverá sempre um caminho, uma saída para qualquer mal que sobressair.
Marquês de Pombal sabia disso, então saiba você também. A luz pode faltar, mas,
na sua cabeça, sempre será dia de brilho intenso e raios vívidos.
O verdadeiro personagem
“...
Não leve o personagem pra cama
Pode
acabar sendo fatal
Então
desmonta logo esta máscara
Voltamos
à estaca zero
Fica
tudo igual... Normal...”
Composição:
Lulu Santos
O
personagem é como um salto alto, ele lhe dá altivez, confiança, desenvoltura. Com
ele, ressoam em você poder, status, sexy appeal. A questão é até quando você
pode sustentá-lo, até onde você pode marchar sobre a plataforma, antes que os
pés sangrem e a coluna se contorça. Não é clara a fronteira, muitas vezes o
personagem se confunde com o ator e o que era para ser só fantasia se torna
realidade. Com quem você acorda pelas manhãs? Com você ou com o personagem?
Quem vai com você para a cama todas as noites, quem gosta de você de verdade ou
alguém que se apaixonou meramente pelo personagem? Muitas vezes, a vida é
chata, mas ela também pode ser o mais extraordinário roteiro de ficção. Basta
viver intensamente e seguir o fluxo dos fatos. O personagem não é a inspiração
para as pessoas, são as pessoas que inspiram a criação dos personagens. Quantas
pessoas você já não conheceu que são, por si só, grandes personagens? Então é
assim, não precisa inventar, viver o que não se é. Acredite, o melhor
personagem que você pode ser é aquele que sua essência carrega, é aquele que
você já é naturalmente. Apenas deixe que ele exista e saia da casca. Perceba
que ser o que se é, em essência e plenitude, é o maior exercício de
personificação que se pode fazer. Esse é o personagem que merece os mais
efusivos aplausos, a mais generosa das críticas.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Cheiro
A sombra da noite não esconde o cheiro,
nada que você faça vai esconder seus tantos defeitos. Não adianta, a máscara
não é um tapete sob o qual você pode esconder toda a sujeira. Todos os seus
passos deixam pegadas, não é impossível encontrá-las. Seu coração não é mais
tão resistente quanto sua ambição. Haverá um tempo em que você não suportará e
acabará por entregar os pontos, e talvez a cabeça sobre uma bandeja. Você está
mesmo preparado para isso? Há o tempo da bonança, mas a tempestade chega,
então, onde você irá se esconder, a quem irá enganar? Seus truques não são mais
os mesmos, ou melhor, são sim e esse é o problema. Todos já conhecem os
segredos de seu ilusionismo, todos sabem de cor seus traquejos para roubar a
atenção da plateia, enquanto a carta secreta escorrega por baixo da manga.
Agora não mais. Então, o que fará? Recorrerá a uma conveniente humildade?
Espere, mas esse é mais um truque. Ou tentará se camuflar no meio da manada, sem
tomar a frente ou a retaguarda, na esperança de usar seus pares como escudo? Outra
questão importante, depois de tudo, que manada vai aceitá-lo, que agrupamento
irá agregá-lo? As pessoas não esquecem o passado, apenas acomodam a lembrança
onde menos incomoda. E quando você se aproximar, todos os ódios virão à tona,
todo o mal feito será dissecado sob luz. E aí? Como fugir, como se justificar? Será
que ainda há cartas no seu baralho e palavras no seu dicionário? Esse é um conselho,
mas deveria ser uma ordem: fuja, se esconda, se afaste de onde os olhos podem
vê-lo. E tenha medo, pois, por mais que você tente se passar por outra pessoa,
o cheiro sempre revelará quem, de verdade, você é.
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