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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Minha própria busca



Minha vida está passando, o tempo está passando; como se fossem paredes de um quarto se fechando para me esmagar. Que pesadelo, que gosto amargo. Mas isso, então, é o final? Um desespero agudo e curto, como se fosse o estampido de um tiro de revólver? O que mais fazer? Para onde ir? Cada resposta que eu busco me deixa ainda mais confuso. Nunca fui tão aconselhado e nunca estive mais perdido. Parece uma piada de mau gosto de destino. Tudo que tento se perde no nada, minhas tentativas são todas sem acerto. O erro é o que me cabe. Já tentei a receita de Samuel Beckett, melhorei meus fracassos, mas eles continuam sendo fracassos. As soluções eu não tenho. Para piorar, não estou ficando mais jovem ou mais atraente. Pelo contrário, o desgaste dos anos já me alcança e meu corpo é prova disso. Como faço para recuperar meu tempo perdido? O que me diria Renato Russo em sua voz rouca e grave? Eu simplesmente não sei o que fazer. Eu me sinto a beira do precipício, a ponto de desistir. Mas aí me vem um pensamento louco e muito recorrente. E se eu estiver no caminho errado? E se eu estiver disputando maratona em meio a um rali de motos? Ou se estiver de moto no meio de uma marcha atlética? Não importa chegar antes ou depois. Eu sempre serei desclassificado por que não estou seguindo as regras do jogo. Aliás, nem sei mesmo qual o meu jogo. Aí, respiro fundo, pego minhas coisas e me perco por aí. Entre o nada e o abismo, repenso todo o meu caminho e tudo que ali fiz por escolha própria ou por imposições indiretas. Então me cai a ficha. Eu não preciso ter sucesso ou ser o melhor. Eu preciso é me esforçar ao máximo naquilo que eu escolhi para fazer. A opinião dos outros, essa eu prefiro deixar para lá, porque, no fundo, não me querem mal, mas me fazem muito mal quando querem que eu seja aquilo que não sou. Enfim, agora eu sei o que seguir, qual o meu jogo e por onde começar. Seja como for, tudo é meu: a culpa, o custo, o crédito, o débito, ou o que estiver lá na frente me esperando. A minha resposta, no fim, foi a minha própria busca.

Algo de novo



Há algo de novo ali no horizonte. Não só em Belo Horizonte, mas em todos os horizontes que se avista Brasil afora. Acorda em seu coração um sorriso; não um sorriso qualquer, mas aquele sorriso límpido, intransitivo, no modo imperativo. Aquele sorriso que não requer qualquer palavra para ser respondido por outro sorriso, talvez ainda mais vívido e radiante. Não há discurso túrgido ou mórbido capaz de calar essa voz que nasce crédula e imponente, se postando em favor da pluralidade e da empatia, acima de qualquer maldade ou retrocesso. Não há muito o que se descrever para quem ainda se encolhe nas sombras e no obscurantismo, mas resta esperança de que as inteligências ainda se regenerarão e se insurgirão contra o peso do infortúnio e do fracasso anunciado. Em tempos de resistência, é preciso ter paciência com os oprimidos que se julgam opressores, com aqueles que vivem ainda enclausurados em suas próprias síndromes de Estocolmo. No fim, isso é certo, brilhará intensamente a luz do saber e da clarividência, permitindo que não mais nos enxerguemos como inimigos entrincheirados em lados opostos. Quando a sabedoria superar a desavença, nos enxergaremos como irmãos de jornadas, como passageiros de uma mesma aeronave com um mesmo destino. E aí, trabalharemos muito mais como cúmplices e parceiros do que como adversários em uma batalha tão sem sentido e tão vazia em resultados.


terça-feira, 18 de junho de 2019

Escuros sagrados, grotescos amargos



Não se assuste, mas também não se encante
Eu sou o você de ontem, eu sou a máscara que você tanto renega
Entre tantas renúncias, você fez a possível e também a impossível
E, agora, em um baile de sentimentos, tudo transita para lugar algum
Sim, esse lugar algum utópico, distópico, quase um trópico
Um paraíso perdido entre seus soltos instintos
Um elo aberto entre a fronteira do passado e do futuro contíguo
Tudo agora se acalma, como brasa em alma, como fogo amigo
Ainda assim, você não está livre do perigo
Perigo é logo ali, é o insuspeito vizinho, o inesperado conterrâneo
E como tudo é contemporâneo, saia do abrigo, se livre do aviso
Quando tudo acontece simplesmente por fato escolhido
O destino se torna aliado e um novo comissionado
Para a existência plena, plural, contagiante
Tão inebriante quanto os tantos tons de cinza que lhe espreitam
Por trás das curtas cortinas, por entre os carros na avenida
Por entre o castanho-escuro das travessas íris
Que insistem invadir seus escuros sagrados, seus grotescos amargos

Singelo ato



Às vezes, sinto o que vivo
Às vezes, sinto o ar que aspiro
Às vezes, sinto onde abrigo
E, assim, de suspiro em suspiro,
De um gemido até o próximo grito
Me reúno, me resgato, me reencontro
Mas onde estão as páginas rasgadas?
Onde estão as emoções não vividas?
Para que tanto gasto para tão pouca energia?
Às vezes, é preciso julgar os méritos dos resultados
Às vezes, é preciso julgar as perguntas antes das respostas
Às vezes, é preciso largar tudo e se permitir algo novo
Não há conclusões lógicas e óbvias para todo questionamento
Mas, muitas vezes, o singelo ato de questionar e de se questionar
Transcende a absurda necessidade de se ter uma resposta para tudo

terça-feira, 14 de maio de 2019

Flora


Não é sua culpa
Você é a vítima e não a algoz
De você, tiraram tudo: sonhos, esperança, futuros...
Mas mesmo assim, você não desiste e segue em frente
Transformando dor em luta, vertendo do mal o mais puro bem
Você tem esse dom, de tocar e comover as pessoas
É como se fosse o espelho em que todos querem se refletir
E, de certa forma, você o é e sempre vai ser
Porque você paga seu luto com suas próprias lágrimas
Jamais com as alheias
Você absorve tudo que é malévolo
E retorna com gestos de benevolência e fidalguia
Você é como a flora
Aspira o gás tóxico do ambiente
E devolve ar puro e refrescante
Como é bom ver você assim, sendo quem você é
Acima das mágoas e dos dissabores
Você segue sendo sua melhor versão
E isso inspira tudo ao derredor
E faz com que tudo seja ainda melhor

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Velho Noel



Para ser sincero, eu não quero mais. Não quero mais brigar, não quero mais sofrer. Esse nosso processo torturante, quase dialético, não nos faz bem. Só quero paz, amor e compreensão mútua. Quero só que sejamos felizes, próximos ou distantes. Seja como for, vai ficar tudo bem. Somos maduros e conscientes. Não precisamos ficar olhando para trás, nos angustiando por algo que já ficou para Alá. Ali na frente, bem à frente, há uma linda e bela jornada aguardando cada um de nós. Ali é que será jogado esse desafio chamado Destino. Enfrentá-lo, acima de tudo, é uma obrigação e não um luxo ou uma experiência lúdica. Assim, vamos até Ele.  Que nossas armas sejam um sorriso no rosto, um coração sereno e a melhor das intenções. Do resto, ele, o Destino, se encarrega, entregando a cada um de nós o que realmente fizemos por merecer, como uma criança que só é contemplada pelo Velho Noel quando o comportamento anual assim permitiu.

Arrombado



Não me diga o que fazer nem para onde ir
Sou dono do meu próprio destino, sou dono do meu próprio nariz
Vamos lá, pode rir, pode se divertir
Se minha desgraça é engraçada, então sorria
Mas eu não vou me fazer de rogado nem bancar o educado
Quer saber? Vai se foder, vai tomar no seu cu
Poeta que regula palavra é o mesmo que baixa a cabeça e mostra o rabo
Não estou aqui para agradar e sim para irritar
Não estou aqui para pedir benção e sim para roubar o cofre
Não me quer por perto? Então me exorcize ou me mate
Se nada você fizer, aqui ficarei com meu livre arbítrio
Pronto para em desatino erguer o dedo médio
E mandar que o enfie no meio do seu butão sujo
Ou, nos termos que você prefere, no cerne do seu reto fétido
Mas isso me desonraria perante Bocage, Bandeira e Gregório
Então, em bom português, eu digo e repito
Meta esse dedo grosso no seu toba e roda, filho da puta de merda
Seu arrombado do caralho