Minha vida está passando,
o tempo está passando; como se fossem paredes de um quarto se fechando para me
esmagar. Que pesadelo, que gosto amargo. Mas isso, então, é o final? Um
desespero agudo e curto, como se fosse o estampido de um tiro de revólver? O que
mais fazer? Para onde ir? Cada resposta que eu busco me deixa ainda mais
confuso. Nunca fui tão aconselhado e nunca estive mais perdido. Parece uma
piada de mau gosto de destino. Tudo que tento se perde no nada, minhas
tentativas são todas sem acerto. O erro é o que me cabe. Já tentei a receita de
Samuel Beckett, melhorei meus fracassos, mas eles continuam sendo fracassos. As
soluções eu não tenho. Para piorar, não estou ficando mais jovem ou mais
atraente. Pelo contrário, o desgaste dos anos já me alcança e meu corpo é prova
disso. Como faço para recuperar meu tempo perdido? O que me diria Renato Russo
em sua voz rouca e grave? Eu simplesmente não sei o que fazer. Eu me sinto a
beira do precipício, a ponto de desistir. Mas aí me vem um pensamento louco e
muito recorrente. E se eu estiver no caminho errado? E se eu estiver disputando
maratona em meio a um rali de motos? Ou se estiver de moto no meio de uma
marcha atlética? Não importa chegar antes ou depois. Eu sempre serei
desclassificado por que não estou seguindo as regras do jogo. Aliás, nem sei
mesmo qual o meu jogo. Aí, respiro fundo, pego minhas coisas e me perco por aí.
Entre o nada e o abismo, repenso todo o meu caminho e tudo que ali fiz por
escolha própria ou por imposições indiretas. Então me cai a ficha. Eu não
preciso ter sucesso ou ser o melhor. Eu preciso é me esforçar ao máximo naquilo
que eu escolhi para fazer. A opinião dos outros, essa eu prefiro deixar para
lá, porque, no fundo, não me querem mal, mas me fazem muito mal quando querem
que eu seja aquilo que não sou. Enfim, agora eu sei o que seguir, qual o meu
jogo e por onde começar. Seja como for, tudo é meu: a culpa, o custo, o
crédito, o débito, ou o que estiver lá na frente me esperando. A minha
resposta, no fim, foi a minha própria busca.
Esse blog é uma gota de meu sangue, um plasma de meus sentimentos. Poesia, humor, política, dor, frustrações. É um espaço onde sou o que deveria ser ou o que nunca fui. É um lugar onde sou um personagem e uma entidade em vida. Sou um rio e também as pedras. A angústia perdida ou um sorriso espontâneo. Sou eu em múltiplas formas ou em forma alguma.
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quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Algo de novo
Há algo de novo ali no
horizonte. Não só em Belo Horizonte, mas em todos os horizontes que se avista
Brasil afora. Acorda em seu coração um sorriso; não um sorriso qualquer, mas
aquele sorriso límpido, intransitivo, no modo imperativo. Aquele sorriso que
não requer qualquer palavra para ser respondido por outro sorriso, talvez ainda
mais vívido e radiante. Não há discurso túrgido ou mórbido capaz de calar essa
voz que nasce crédula e imponente, se postando em favor da pluralidade e da
empatia, acima de qualquer maldade ou retrocesso. Não há muito o que se
descrever para quem ainda se encolhe nas sombras e no obscurantismo, mas resta
esperança de que as inteligências ainda se regenerarão e se insurgirão contra o
peso do infortúnio e do fracasso anunciado. Em tempos de resistência, é preciso
ter paciência com os oprimidos que se julgam opressores, com aqueles que vivem
ainda enclausurados em suas próprias síndromes de Estocolmo. No fim, isso é
certo, brilhará intensamente a luz do saber e da clarividência, permitindo que
não mais nos enxerguemos como inimigos entrincheirados em lados opostos. Quando
a sabedoria superar a desavença, nos enxergaremos como irmãos de jornadas, como
passageiros de uma mesma aeronave com um mesmo destino. E aí, trabalharemos
muito mais como cúmplices e parceiros do que como adversários em uma batalha
tão sem sentido e tão vazia em resultados.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Escuros sagrados, grotescos amargos
Não se assuste, mas também não se
encante
Eu sou o você de ontem, eu sou a máscara
que você tanto renega
Entre tantas renúncias, você fez a
possível e também a impossível
E, agora, em um baile de sentimentos,
tudo transita para lugar algum
Sim, esse lugar algum utópico, distópico,
quase um trópico
Um paraíso perdido entre seus soltos
instintos
Um elo aberto entre a fronteira do passado
e do futuro contíguo
Tudo agora se acalma, como brasa em
alma, como fogo amigo
Ainda assim, você não está livre do
perigo
Perigo é logo ali, é o insuspeito
vizinho, o inesperado conterrâneo
E como tudo é contemporâneo, saia do
abrigo, se livre do aviso
Quando tudo acontece simplesmente por
fato escolhido
O destino se torna aliado e um novo
comissionado
Para a existência plena, plural,
contagiante
Tão inebriante quanto os tantos tons de
cinza que lhe espreitam
Por trás das curtas cortinas, por entre
os carros na avenida
Por entre o castanho-escuro das
travessas íris
Que insistem invadir seus escuros
sagrados, seus grotescos amargos
Singelo ato
Às vezes, sinto o que vivo
Às vezes, sinto o ar que aspiro
Às vezes, sinto onde abrigo
E, assim, de suspiro em suspiro,
De um gemido até o próximo grito
Me reúno, me resgato, me reencontro
Mas onde estão as páginas rasgadas?
Onde estão as emoções não vividas?
Para que tanto gasto para tão pouca energia?
Às vezes, é preciso julgar os méritos
dos resultados
Às vezes, é preciso julgar as perguntas
antes das respostas
Às vezes, é preciso largar tudo e se
permitir algo novo
Não há conclusões lógicas e óbvias para
todo questionamento
Mas, muitas vezes, o singelo ato de
questionar e de se questionar
Transcende a absurda necessidade de se
ter uma resposta para tudo
terça-feira, 14 de maio de 2019
Flora
Não é sua culpa
Você é a vítima e não a algoz
De você, tiraram tudo: sonhos, esperança,
futuros...
Mas mesmo assim, você não desiste e segue em
frente
Transformando dor em luta, vertendo do mal o mais
puro bem
Você tem esse dom, de tocar e comover as pessoas
É como se fosse o espelho em que todos querem se
refletir
E, de certa forma, você o é e sempre vai ser
Porque você paga seu luto com suas próprias
lágrimas
Jamais com as alheias
Você absorve tudo que é malévolo
E retorna com gestos de benevolência e fidalguia
Você é como a flora
Aspira o gás tóxico do ambiente
E devolve ar puro e refrescante
Como é bom ver você assim, sendo quem você é
Acima das mágoas e dos dissabores
Você segue sendo sua melhor versão
E isso inspira tudo ao derredor
E faz com que tudo seja ainda melhor
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Velho Noel
Para ser sincero, eu não
quero mais. Não quero mais brigar, não quero mais sofrer. Esse nosso processo
torturante, quase dialético, não nos faz bem. Só quero paz, amor e compreensão
mútua. Quero só que sejamos felizes, próximos ou distantes. Seja como for, vai
ficar tudo bem. Somos maduros e conscientes. Não precisamos ficar olhando para
trás, nos angustiando por algo que já ficou para Alá. Ali na frente, bem à
frente, há uma linda e bela jornada aguardando cada um de nós. Ali é que será
jogado esse desafio chamado Destino. Enfrentá-lo, acima de tudo, é uma
obrigação e não um luxo ou uma experiência lúdica. Assim, vamos até Ele. Que nossas armas sejam um sorriso no rosto,
um coração sereno e a melhor das intenções. Do resto, ele, o Destino, se
encarrega, entregando a cada um de nós o que realmente fizemos por merecer,
como uma criança que só é contemplada pelo Velho Noel quando o comportamento anual
assim permitiu.
Arrombado
Não
me diga o que fazer nem para onde ir
Sou
dono do meu próprio destino, sou dono do meu próprio nariz
Vamos
lá, pode rir, pode se divertir
Se
minha desgraça é engraçada, então sorria
Mas
eu não vou me fazer de rogado nem bancar o educado
Quer
saber? Vai se foder, vai tomar no seu cu
Poeta
que regula palavra é o mesmo que baixa a cabeça e mostra o rabo
Não
estou aqui para agradar e sim para irritar
Não
estou aqui para pedir benção e sim para roubar o cofre
Não
me quer por perto? Então me exorcize ou me mate
Se
nada você fizer, aqui ficarei com meu livre arbítrio
Pronto
para em desatino erguer o dedo médio
E
mandar que o enfie no meio do seu butão sujo
Ou,
nos termos que você prefere, no cerne do seu reto fétido
Mas
isso me desonraria perante Bocage, Bandeira e Gregório
Então,
em bom português, eu digo e repito
Meta
esse dedo grosso no seu toba e roda, filho da puta de merda
Seu
arrombado do caralho
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