Eu sou aquilo que lhe
falta. Sou a roupa que você não tem, o sapato que ainda não comprou e o relógio
que incompleta a sua coleção. Sou a viagem dos seus sonhos, a fantasia do seu
consumo, tudo aquilo que suas mãos não alcançam. E jamais alcançarão. Luxos e
luxúrias não equacionam nosso vazio existencial. Tudo aquilo que o dinheiro e
os pés tocam não são suficientes para responder aos nossos anseios ancestrais,
às interrogações abissais. Assim, a paz e o sossego só se tornam nosso refúgio
quando entendemos que nossa busca é em nós mesmos, em nossa própria essência e
em nossa própria reconstrução. Nada contra os prazeres desfrutados e desfrutáveis
através do que honestamente conquistamos. Nada contra os passeios e as compras,
afinal, trabalhamos para termos onde investir e aplicar. Mas isso somente não fecha
o arco de nossas inquietações. Para se explicar e se entender, o ser humano
precisa se aceitar. Isso não vem de fora, não vem do que adquirimos. Isso vem
do que fazemos e de como interpretamos nossos próprios atos. Ao entendermos o
que fazemos, podemos tomar isso como um caminho certo ou como descaminho. Sendo
caminho certo, temos a paz necessária de seguir nele e de aperfeiçoá-lo. Se for
descaminho, teremos de reajustar a rota e reedificar a estrada, tornando-a o
elo para algo maior e mais profundo. Seja como for, a paz interior e a plenitude
final são frutos daquilo que somos a partir de como agimos. Procurar soluções
existenciais nas prateleiras do mundo é apenas paliativo que trata o sintoma,
alimenta a causa e torna a identificação do problema ainda mais longínqua e
fugaz.
Esse blog é uma gota de meu sangue, um plasma de meus sentimentos. Poesia, humor, política, dor, frustrações. É um espaço onde sou o que deveria ser ou o que nunca fui. É um lugar onde sou um personagem e uma entidade em vida. Sou um rio e também as pedras. A angústia perdida ou um sorriso espontâneo. Sou eu em múltiplas formas ou em forma alguma.
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segunda-feira, 19 de agosto de 2019
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Sentimentos confusos
Por que é tudo assim tão solto e tão subliminar?
Por que não dizemos tudo o que queremos?
De quem temos medo? De nós mesmos ou de algo a
mais?
Sinto essa vontade intensa, sufocante e vulcânica
De gritar, chorar, me expandir
Que lágrimas são essas que não as minhas?
Por que minhas emoções parecem assim tão
divididas?
Eu quero entender, fazer acontecer
Embora ainda me sinta um navegador do nada
Um alguém que gira sem rumo e sem prumo
Será que você virá mesmo me resgatar?
Porque sinto você também tão perdida
Ainda assim, nesse mar de sentimentos confusos
Poderemos nos reencontrar e nos abraçar
Mas será um abraço genuíno e redentor?
Ou apenas um desesperado entrelaço de afogados?
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Minha própria busca
Minha vida está passando,
o tempo está passando; como se fossem paredes de um quarto se fechando para me
esmagar. Que pesadelo, que gosto amargo. Mas isso, então, é o final? Um
desespero agudo e curto, como se fosse o estampido de um tiro de revólver? O que
mais fazer? Para onde ir? Cada resposta que eu busco me deixa ainda mais
confuso. Nunca fui tão aconselhado e nunca estive mais perdido. Parece uma
piada de mau gosto de destino. Tudo que tento se perde no nada, minhas
tentativas são todas sem acerto. O erro é o que me cabe. Já tentei a receita de
Samuel Beckett, melhorei meus fracassos, mas eles continuam sendo fracassos. As
soluções eu não tenho. Para piorar, não estou ficando mais jovem ou mais
atraente. Pelo contrário, o desgaste dos anos já me alcança e meu corpo é prova
disso. Como faço para recuperar meu tempo perdido? O que me diria Renato Russo
em sua voz rouca e grave? Eu simplesmente não sei o que fazer. Eu me sinto a
beira do precipício, a ponto de desistir. Mas aí me vem um pensamento louco e
muito recorrente. E se eu estiver no caminho errado? E se eu estiver disputando
maratona em meio a um rali de motos? Ou se estiver de moto no meio de uma
marcha atlética? Não importa chegar antes ou depois. Eu sempre serei
desclassificado por que não estou seguindo as regras do jogo. Aliás, nem sei
mesmo qual o meu jogo. Aí, respiro fundo, pego minhas coisas e me perco por aí.
Entre o nada e o abismo, repenso todo o meu caminho e tudo que ali fiz por
escolha própria ou por imposições indiretas. Então me cai a ficha. Eu não
preciso ter sucesso ou ser o melhor. Eu preciso é me esforçar ao máximo naquilo
que eu escolhi para fazer. A opinião dos outros, essa eu prefiro deixar para
lá, porque, no fundo, não me querem mal, mas me fazem muito mal quando querem
que eu seja aquilo que não sou. Enfim, agora eu sei o que seguir, qual o meu
jogo e por onde começar. Seja como for, tudo é meu: a culpa, o custo, o
crédito, o débito, ou o que estiver lá na frente me esperando. A minha
resposta, no fim, foi a minha própria busca.
Algo de novo
Há algo de novo ali no
horizonte. Não só em Belo Horizonte, mas em todos os horizontes que se avista
Brasil afora. Acorda em seu coração um sorriso; não um sorriso qualquer, mas
aquele sorriso límpido, intransitivo, no modo imperativo. Aquele sorriso que
não requer qualquer palavra para ser respondido por outro sorriso, talvez ainda
mais vívido e radiante. Não há discurso túrgido ou mórbido capaz de calar essa
voz que nasce crédula e imponente, se postando em favor da pluralidade e da
empatia, acima de qualquer maldade ou retrocesso. Não há muito o que se
descrever para quem ainda se encolhe nas sombras e no obscurantismo, mas resta
esperança de que as inteligências ainda se regenerarão e se insurgirão contra o
peso do infortúnio e do fracasso anunciado. Em tempos de resistência, é preciso
ter paciência com os oprimidos que se julgam opressores, com aqueles que vivem
ainda enclausurados em suas próprias síndromes de Estocolmo. No fim, isso é
certo, brilhará intensamente a luz do saber e da clarividência, permitindo que
não mais nos enxerguemos como inimigos entrincheirados em lados opostos. Quando
a sabedoria superar a desavença, nos enxergaremos como irmãos de jornadas, como
passageiros de uma mesma aeronave com um mesmo destino. E aí, trabalharemos
muito mais como cúmplices e parceiros do que como adversários em uma batalha
tão sem sentido e tão vazia em resultados.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Escuros sagrados, grotescos amargos
Não se assuste, mas também não se
encante
Eu sou o você de ontem, eu sou a máscara
que você tanto renega
Entre tantas renúncias, você fez a
possível e também a impossível
E, agora, em um baile de sentimentos,
tudo transita para lugar algum
Sim, esse lugar algum utópico, distópico,
quase um trópico
Um paraíso perdido entre seus soltos
instintos
Um elo aberto entre a fronteira do passado
e do futuro contíguo
Tudo agora se acalma, como brasa em
alma, como fogo amigo
Ainda assim, você não está livre do
perigo
Perigo é logo ali, é o insuspeito
vizinho, o inesperado conterrâneo
E como tudo é contemporâneo, saia do
abrigo, se livre do aviso
Quando tudo acontece simplesmente por
fato escolhido
O destino se torna aliado e um novo
comissionado
Para a existência plena, plural,
contagiante
Tão inebriante quanto os tantos tons de
cinza que lhe espreitam
Por trás das curtas cortinas, por entre
os carros na avenida
Por entre o castanho-escuro das
travessas íris
Que insistem invadir seus escuros
sagrados, seus grotescos amargos
Singelo ato
Às vezes, sinto o que vivo
Às vezes, sinto o ar que aspiro
Às vezes, sinto onde abrigo
E, assim, de suspiro em suspiro,
De um gemido até o próximo grito
Me reúno, me resgato, me reencontro
Mas onde estão as páginas rasgadas?
Onde estão as emoções não vividas?
Para que tanto gasto para tão pouca energia?
Às vezes, é preciso julgar os méritos
dos resultados
Às vezes, é preciso julgar as perguntas
antes das respostas
Às vezes, é preciso largar tudo e se
permitir algo novo
Não há conclusões lógicas e óbvias para
todo questionamento
Mas, muitas vezes, o singelo ato de
questionar e de se questionar
Transcende a absurda necessidade de se
ter uma resposta para tudo
terça-feira, 14 de maio de 2019
Flora
Não é sua culpa
Você é a vítima e não a algoz
De você, tiraram tudo: sonhos, esperança,
futuros...
Mas mesmo assim, você não desiste e segue em
frente
Transformando dor em luta, vertendo do mal o mais
puro bem
Você tem esse dom, de tocar e comover as pessoas
É como se fosse o espelho em que todos querem se
refletir
E, de certa forma, você o é e sempre vai ser
Porque você paga seu luto com suas próprias
lágrimas
Jamais com as alheias
Você absorve tudo que é malévolo
E retorna com gestos de benevolência e fidalguia
Você é como a flora
Aspira o gás tóxico do ambiente
E devolve ar puro e refrescante
Como é bom ver você assim, sendo quem você é
Acima das mágoas e dos dissabores
Você segue sendo sua melhor versão
E isso inspira tudo ao derredor
E faz com que tudo seja ainda melhor
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