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terça-feira, 20 de abril de 2021

Devaneio e Destino


Por onde você caminha, peregrina?

Por que me deixa assim tão solto, tão só?

Eu só queria que “apesar dos pesares”

Se corpo ainda pesasse sobre o meu

Que “apesar dos pesares”

Seu rosto ainda se confundisse com o meu

Só que não, não podemos mais viver assim

Agora nos resta a condenação do vazio

Onde ficamos sozinhos, sombrios

Mesmo sob o mais belo luar

Mesmo sob a mais linda cachoeira

Ainda somos nós mesmos

Só não sabemos mais quem só somos

Átomos dos hiatos

Primos das primazias

Infernos do mais celestial devaneio

Então, por que você ainda não veio?

Do que você tem tanto medo?

De errar de novo ou de descobrir

Que, no fim, nunca foi engano ou tropeço

A alheia vilania nada mais é

Do que os próprios passos certeiros

Que seus pés desenharam na manhã da terra

Conformando o que é e sempre será

Seu inevitável e poético Destino

terça-feira, 9 de março de 2021

Meu Cascata


Meu lugar é onde cresci, onde vivi
Onde fiz grandes amigos com quem aprendi
É onde meus pais me levaram ainda pequeno
Para ser um lugar feliz e muito pleno
E esse lugar foi incrível, muito especial
Foi onde corri, brinquei e, no asfalto, sangrei
Foi onde descobri fantasmas e farsas
Foi onde caí na porrada e também de alegria
Esse lugar, tão misterioso e acolhedor
Me ensinou que os piratas nem sempre vêm do mar
Que nem sempre ficamos com a garota
Por quem nos apaixonamos
Ainda assim é um lugar lindo e mágico
Foi onde brinquei de ser homem
Foi onde brinquei de ser feliz
O primeiro porre, o primeiro beque
O coração partido e o gol de falta
Esse lugar, pra mim, é a tradução da felicidade
É onde os malandros e os playboys se revezam
É onde o herói não é tão óbvio
O lugar onde sempre tive como casa
Claro que é você, meu querido Cascata
Churrascos e cachaçada sem fim
Festa e bagaça até o não virar sim
Ah, meu Cascata, tudo em você é assim
Nostalgia, alquimia e, claro, putaria
Mas esse Cascata não seria tão legal
Sem aquele galera que o faz ser tão especial
Então, obrigado, queridos amigos
Sem vocês, seria só mais um lugar
Mas, com vocês, é o lugar
O melhor que se poderia imaginar
O meu amado e querido Cascata 

Supremo mal


Meu coração está aflito, ferido

É um fio cortado, um coração partido

Mas não partido por uma mulher

Por uma pessoa que mal me quer

O que despedaça meu peito é meu País

O lugar onde eu deveria ser feliz

Como pode esse Brasil?

De Suassuna, Machado, Drumond, Lispector

De Dumont, Villa-Lobos, Niemeyer, Carolina

Render-se a Bolsonaro

Render-se ao mais covarde ato?

Minhas lágrimas sangram meu rosto

Sangram as letras do meu esboço

Essa luta cruenta contra o assassino vírus

Já está tomada, já está perdida

Mesmo que haja saída, mesmo que haja vacina

Porque no dia do voto, no dia da decisão

Trocamos a sabedoria por imprecisão

Trocamos a civilidade pela amargura

E agora sofremos, mesmo de armadura

Porque o despreparo encontrou a destruição

Porque, não importa o parágrafo final

O bem foi superado pelo supremo mal

E isso pode ser tristemente comprovado

Pelos milhares de corpos que ainda serão enterrados

domingo, 9 de agosto de 2020

Livro aberto

 


Me beije se você estiver a fim

Me pegue se você estiver na vibe

Não culpe meus relacionamentos inexistentes

Para justificar sua falta de atitude

Eu sou, assim, livro aberto e alma leve

Se você tanto quer, então me carregue

E me faça feliz, me faça sorrir

Se você conseguir, serei toda sua

Se não, estarei por aí, do meu jeito

Desapegada, sossegada, bem resolvida

Pulando de galho em galho

Descendo de estação em estação

Até descobrir alguém que, de verdade

Desnude e decifre o meu coração


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Tesouro

 

Eu não te amava nem poderia

Quando te conheci, ainda de outra pessoa gostava

Talvez eu ainda goste, não sei ao certo

O que sei é que, de tempo em tempo,

De momento em momento

Você ganhou meu miocárdio

Você passou a ser presença onde só havia ausência

Então, ao menos por justiça, dei a você o benefício

Não o da dúvida, ainda era muito cedo

Mas sim o da desconfiança, o da curiosidade

E você soube explorar o vácuo, soube penetrar a pele

E, sem perceber, eu já queria seu corpo cada vez mais

Queria seus beijos sem nada por detrás

E, logo, você me cativou de fato

E não mais quero viver sem você para abraçar

Meu fim de dia só é melodia quando seu sorriso me canta

E quando meu corpo te encontra

Aí sei que, enfim, encontrei o elo perdido

Aquela pessoa especial que tanto me encanta

A corrente que me prende ao tesouro escondido

De volta

 

Só quero sair daqui
Só quero respirar um ar puro
Mas tudo lá fora parece impuro, imundo
Quero minha vida de volta
Quero sorrisos nos rostos, leveza no olhar
Quero bares cheios, baladas pulsantes
Mas, cheios mesmos, estão os hospitais
E também as instituições sociais
Temos fome e temos uma doença
Não há cura para tanto mal
Que, pelo menos, então
Possamos segurar nas mãos de Deus
E acreditar que ainda dá para resistir
E na luta inglória seguir
Porque essa batalha está longe de acabar
Estamos desafiando o vírus e o verme
E, com eles a bordo, não há o que prospere
Mas que tenhamos a sabedoria e a paciência
Tudo vai mudar, vai melhorar
Mas dessa vez em definitivo
Porque, de nós, os sonhos ninguém pode mais roubar


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Coveiros

Que tristeza, que dor de cabeça

Não sei se é o fim do mundo ou o pandemônio

Só sei que certezas não há mais

Não há mais o amanhã, a segurança do despertar

Tudo agora é nebuloso, turvo, tácito

Nada preside a providência da ação

Estamos ilhados, acéfalos, acrônicos

Estamos nos alimentando do próprio caos

Nos tornando células de nossas próprias células

Estamos canabalizando, banalizando o mal

E, assim, de assopro em assopro

Geramos o tornado letal, o vendaval

Que nos toma e nos tomba aos milhares

Não mais em dezenas e sim em centenas

Estamos em guerra, mas não com outra nação

Sim com nossa própria noção de civilidade

E, qualquer que seja o resultado, muito se sabe

Somos nós, brasileiros, os maiores derrotados

Ceifados pelas nossas próprias lanças

Destruídos por nossa própria sombra

Coveiros de nossa própria tumba