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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pífios e patéticos


Essa semana, como em todas as outras, deu-me certa vergonha de ser jornalista. Não das minhas condutas e práticas, pois delas me orgulho muito. Até mesmo os erros são valiosos, pois foram pedagógicos em sua maioria.
No entanto, a condição de jornalista me traz algum desconforto quando observo os “colegas” (nem sei se merecem tal qualificação) das mesas-redondas esportivas. Em sua maioria, são uns verdadeiros malas a repetir aquele discurso enfadonho e entediante de sempre.
Esses, embora motivo de vergonha para a classe, tornam-se figuras caricatas e folclóricas, alguém de quem se ri, sem nunca se levar a sério.
Todavia, existe um grupo de profissionais que causa mais preocupação ao jornalismo enquanto atividade social. São os jornalistas doutores em estatísticas e em análises esportivas. Esses caras, que nunca devem ter praticado esporte algum na vida, julgam-se no direito de dizer o que os jogadores e atletas devem fazer e deixar de fazer. Sempre com dados, cuja origem constitui um verdadeiro mistério, defendem interesses e pontos de vista em alguns momentos esdrúxulos e em outros patéticos.
Porém, por trás de tamanha estranheza, esconde-se um jogo de preferências e desamores. Em outras palavras, esses “jornalistas” usam números para encobrir e respaldar seu lado “torcedor”. Jamais se assumem, mas também nunca deixam de defender o clube de coração quando estão “a trabalho”.
Por via de regra, esses profissionais são arrogantes e “donos da verdade”. Adoram contestar, mas não toleram opiniões contrárias. Sempre dispostos a provar suas preferências, distorcem informações e maltratam os fatos. Esqueci alguma coisa? Ah, sim, os estereótipos e os preconceitos. É um recurso tão frequente para esses profissionais que até mesmo me esqueço de que a realidade vai muito além disso.
Querem exemplos? Vamos a eles. O Atlético-MG é um time azarado e de torcedores incapazes de fazer uma análise lógica do jogo. O Botafogo é um time de chorões, de gente traumatizada que se julga perseguida (nas infelizes palavras de um desses “jornalistas doutores”, existe a figura do “botafoguense típico”. Flamenguistas, vascaínos e tricolores são torcedores plurais, compreensivos e muito bem resolvidos, não é mesmo?). O São Paulo é um clube de jogadores e dirigentes arrogantes e convencidos. O Cruzeiro só está preocupado em vender jogadores. Inter-RS e Grêmio são equipes que têm menor cobertura jornalística porque são formados por torcedores “elitizados”. Flamengo e Corinthians nunca são beneficiados pelo apito amigo.
Agora, vamos aos estereótipos pessoais. Cuca é um técnico azarado e frágil, incapaz de ser campeão. Muricy é o melhor técnico do Brasil, jamais cabendo desconfiança e críticas a seu trabalho. Luxemburgo prefere jogar cartas a treinar seu time. Neymar é um jogador “cai-cai”. Jóbson é irrecuperável. Fred sofre muitas contusões porque é “baladeiro”. Rivaldo é velho demais para jogar futebol profissionalmente.
E assim caminha a humanidade, não é? Não. A humanidade deve ser pautada por imparcialidade e igualdade. Não se devem dirigir discursos e opiniões, de cunho público e imparcial, de acordo com as preferências pessoais ou da maioria. Não é assim que a banda toca.
Dessa forma, sinto uma profunda vergonha de gente como aquela duplinha dinâmica da Globo que transmitiu Atlético-PR e Flamengo, ontem, em Curitiba. Receber um atleta do Flamengo na cabine de transmissão, no intervalo do jogo, foi de um agudo desrespeito ao time paranaense.
Que o povo de lá saiba dar a resposta devida no Ibope. Aliás, que o povo de todo o Brasil saiba dar a esses “torcedores” com crachá de imprensa uma resposta aos seus programas “pífios e patéticos”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Nunca diga adeus


Quantas vezes na vida você disse adeus? A quantas pessoas você já endereçou a certeza de nunca mais revê-las? Para quantos corações você fechou as portas e engoliu as chaves?
A verdade é que nunca se deve dizer adeus. Os caminhos e descaminhos, os encontros e despedidas, tudo é uma prerrogativa intransferível do Destino.
Não raro, você se vê obrigado a conviver infinitos minutos em um elevador com o mais impetuoso desafeto(a) que jurou jamais rever. Também é comum, por questão de segundos ou centímetros, adiar-se indefinidamente o encontro com aquela pessoa toda especial a quem se prometeu o mundo e um pouco mais.
Portanto, não cabe a nós, seres mortais e imorais, decidirmos com quem encontraremos ou não. Do mesmo lado da calçada, pode estar a víbora peçonhenta que jurávamos página virada ou a pequena sereia que se perdeu em desilusões pretéritas.
Quem vai saber? E aí está o ponto. Não devemos deixar de andar na calçada só porque não sabemos o que vai acontecer ou com que esbarraremos. Essa delícia inesperada que advém na esteira do Destino é que dá sabor e esperança à vida. 
Surpresas desagradáveis? Claro que existem. Mas vamos colocar na balança e comparar. O que mais se tem? Surpresas boas ou ruins? Não tenho bola de cristal, mas estou certo de que você contará muito mais histórias divertidas do que lamentáveis, muito mais reencontros significativos do que traumáticos.
 Então, não esquente. Ande pela calçada, baile sob a chuva e rasgue as cordas vocais com aquelas canções que estão em moda só nos seus pensamentos e lembranças. Caso algum vulto do passado reapareça, ele verá que você está feliz e em plena harmonia. Assim, só restarão duas opções: invejar ou se unir.
A vida é isso. Um genuíno mosaico de lembranças e ações, de reencontros à primeira vista, de passados nem tão perfeitos e de um futuro que sempre será contínuo. Então, nada de tristeza. Deixe o samba rolar e a alegria transbordar. Se a gafieira não estiver convidativa para a dança, relaxa e volta para a mesa. Sempre haverá um bom papo com aqueles doentes do pé, mas muito saudáveis de coração.
E não se esqueça: nunca diga adeus. A vida vai muito além do infinito de nossas certezas e contradições.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A manhã seguinte

Encontro-a esperando na soleira da porta. Seu corpo esconde-se sob um roupão cor de vinho. Coincidência eu ter nas mãos uma garrafa, justamente de vinho. Um abraço e depois entramos os dois em seu apartamento. O cheiro, o aroma, tem tudo a ver com ela. Trata-se de uma textura perfumada, com um toque de incenso e de cigarro. Um estouro e a garrafa se abre. Ainda tenho a rolha nas mãos, quando ela se aproxima. Nossos olhos se encontram no infinito. Nossos lábios não. Ela sorri e me delicio em pensar como seria ousar uma aproximação. Porém, não o faço. Minutos depois, sentamo-nos à cama. A televisão está ligada. Na programação, algum tipo de série ou filme. Nem sei mesmo dizer se é fruto de nossa indústria cultural ou se é algum enlatado que passou pela alfândega. Não importa. Para mim, ela é mais bonita do que aquelas atrizes engessadas por trás de tanta maquiagem e botox. Ela é mais divina do que as imagens canonizadas que circundam o ambiente. Minhas mãos seguram-lhe o rosto, mas, novamente, sem o encontro labial. Ela torce o pescoço e liberta-se de meus dedos de fauno. Eu sorrio, tentando seduzi-la. Ela me empurra, com os pés contra meu peito. Eu sorrio, ela desenha uma curva tênue nos lábios. Quero beijá-la, ela, em dúvida. Sem que eu peça, minha taça se enche mais uma vez. Mais uma vez, tento beijá-la. Ela rola pelo colchão, afastando-se com um sorriso. Eu mergulho, tentando agarrá-la, mas ela me escapa. Apenas tenho nos braços, um travesseiro. Ela me atira alguns outros. Largo todos eles e parto em direção a ela. Ela evapora-se entre as colunas de concreto. Prefiro então tomar mais uma taça. Outra taça depois e logo ela reaparece. Abraça-me pelas costas, fazendo-me sentir a maciez de seus seios contra meu dorso. Uma dose estimulante de carinho e libido. Novamente, viro a taça. Deitamo-nos e nada mais me vem à memória. Na manhã que se segue, acordo nu, entre os lençóis, sem saber se de fato houve algo, se de fato eu deitei-me ali com alguém. Apenas vejo a garrafa vazia e sinto, carregado pela brisa matinal, o sabor de um incenso do passado.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Que vida vive o artista?

Que vida vive o artista?

  
Você conhece algum artista? Entre amigos e parentes, reconhece algum talento singular? Se sua resposta for não, certamente há algo errado. Errado, porém recorrente.
É inegavelmente difícil ver algum artista desbravar as trevas da desconfiança para revelar-se ao mundo. Notadamente, não se fala aqui de um artista de estirpe, de um artista que herda o ofício dos pais ou que já se encontra envolvido nas teias de uma ampla rede cultural.
O foco é o artista marginal, o artista que tem o talento como escudo solitário. Desse tipo de artista, injustamente, cobra-se produção, resultados, status. Ele é visto como um ser que apenas torna-se digno quando ostenta posses e posições destacadas.
        Esse tipo de cobrança, infeliz até a medula, começa no seio do lar, na família. Ao contrário do estímulo natural que se forma em torno do sintoma de talento, força-se uma profissionalização, o ingresso nas engrenagens do modo de produção capitalista. Desse modo, o potencial artístico, enxerga-se na obrigação de “ganhar” a vida, de obter um rendimento que nada mais é do que fruto da exploração trabalhista. A arte escapa para um segundo plano, sob rótulo de hobby ou de uma atividade a que se destina o mais cruel descrédito.
É possível que um atleta de ponta, do mais alto rendimento, trabalhe 8 horas diárias na escravatura de nossas fábricas e escritórios e, ainda assim, obtenha resultados de medalhista olímpico?
Idêntica lógica aplica-se ao universo cultural. Um artista jamais exerce sua plena forma tendo de se equilibrar entre o fio da navalha de um emprego nas esteiras do neoliberalismo e os espasmos criativos.
Em suma, a vida que o artista vive é pautada por uma tessitura malévola e cruenta. Os raros horizontes que se abrem são apenas as varinhas mágicas que estão prontas a transformar arte em produto, inspiração em consumo. A criação pura e artesanal é varrida para o limbo.
Talvez isso tudo explique com didatismo porque muitos não conhecem um artista. Além de uma natural miopia, de uma total alienação e de uma bruta doutrinação a respeito das fronteiras artísticas, desencoraja a arte e seus criadores a falta de instrumentos e de canais que façam da arte um fim e não um meio. Ou alguém considera os artistas marginais (aqueles das ruas, das praças, da esquinas) como um elemento de vanguarda? Sejam sinceros e verão que, pelo prisma que foi imposto, no lugar do artista, enxergasse sim um poeta do ócio, um desertor do exército industrial.
Então, por favor, observem os artistas com os olhos que a natureza legou e os exorte a conquistar os palcos e as páginas. Eles são agentes de transformação, são elos que tornam as correntes de nossa resistência diante da opressão oligárquico-burguesa muito mais poderosas e solidárias.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

MARU


Maru, mestre das cores e formas. Um ser de indecifrável semblante. Por trás de seu olhar duro e de seus gestos enigmáticos, se oculta a graça de um gênio indomável.

Com a virgem folha, suas mãos retesam-se antes de serenar por linhas e traços que nem Nostradamus sonharia imaginar. De sua mente tão vertical nos sonhos, criam-se sereias e senhores, criaturas tão vivas que não raro se confundem com a carne e osso que carregam o segredo da existência.

Maru, em seus sublimes dedos escorrem a arte viva e líquida, seminal como o DNA herdado, um tesouro a ser preservado pela eternidade das gerações ulteriores.

Um artista não faz da arte estilo de vida, mas constrói uma história de vida nos labirintos intrínsecos da criação. Maru, a vida passará para todos nós porque assim exige a perversidade de Chronos, mas sua obra seguirá etérea e nobre, encantado olhares do futuro e inspirando uma legião de seres que hoje só são potência, são como a plural invenção que ainda virá de sua genialidade pagã e divinal.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Mulheres


Um cheiro, um perfume, um tempero... São detalhes desabrochados do corpo de uma mulher que nos deixam em êxtase, em uma sinestesia que explode os limites de nossa razão.
São as mulheres seres tão agradáveis que até seus espinhos nos arranham a pele feito um acalento.
Somos homens e escravos de tão dóceis criaturas. Criaturas que, seladas em um magnífico par de pernas, trazem de nós sonhos e veleidades. Quando as olhamos, nosso coração queima, inflama-se de prazeres e orgasmos que só a alma é capaz de atingir.
Mulheres, seres e sereias, metáforas melodias, belezas bailarinas. Queremos um dia entendê-las, desencaixotar pensamentos e sensações por hora indecifráveis. Queremos que sejam nossas, queremos que sejam plenas. Tantos desejos nos saltam das sombras inconscientes que não há mais linhas para confessá-los.
Resta ainda o prazer de saber que queremos as mulheres em sua simplicidade pagã, em seu corpo a desfilar, em todas as dimensões dessa vida porque delas provém toda santa humanidade.
Mulheres, o que seria da vida sem a graça e sem o charme, sem os desencontros que só tão esplêndidas afrodites são capazes de proporcionar?

terça-feira, 17 de maio de 2011

As regras do jogo


Pego carona na esteira dessa polêmica sobre o livro didático que o MEC distribuiu às escolas.  A publicação, intitulada “Por uma Vida Melhor”, defende que algumas construções em desacordo com os padrões gramaticais não podem ser consideradas invariavelmente erradas.
Esse é um ponto bastante relativo da questão. De fato, estudos linguísticos apontam que não há erro quando o escopo comunicativo é alcançado. Mas, por outro lado, isso não dá licença ou direito a um falante da língua para se expressar impunemente da forma que bem entender, atropelando as convenções morfossintáticas. Isso está lá, nos calhamaços da sociolinguística.
As regras da gramática não nos proíbem no dia-a-dia de falar “Te amo” em vez de “Amo-te”.  Esse ponto, no entanto, não referenda que falemos “Nós pega o peixe”, como o livro didático aponta.
Tudo bem. Falar de forma equivocada é um direito que as pessoas têm. Elas podem optar por serem ignorantes ou não. Mas isso, é claro, tem consequências.
Imaginem se uma pessoa resolve andar com roupas velhas, sujas e rasgadas? E se ela decide parar de tomar banho? É um direito que ela tem. No entanto, ela não pode depois reclamar de preconceito por ser evitada pelos pares de sociedade. Não pode também reclamar se alguém sugerir que ela tome banho e vista roupas limpas.
O mesmo mecanismo acontece com a língua. Uma pessoa consegue sobreviver engolindo as regras gramaticais e construindo textos apenas inteligíveis, mas ela sofrerá quando precisar se comunicar com pessoas que utilizam as regras previstas em nosso idioma. É simples. Não se trata de preconceito e sim de se respeitar as regras de um jogo, que é a comunicação através de uma estrutura formada por palavras dispostas de uma maneira sistemática.
Imaginem os nossos grandes autores escrevendo em flagrante desrespeito à gramática. Imaginem parlamentares, juízes e diplomatas desenvolvendo flexões verbais como a mostrada no livro. Imaginem essa anarquia em nossa comunicação oficial. É difícil imaginar, pois até mesmo quem defende o direito de “errar” não se atreve a escrever “Nós pega o peixe” com sua assinatura logo abaixo.
Portanto, sejamos razoáveis. No quotidiano, são válidos pequenos desvios de gramaticalidade, de sintaxe e até de concordância. Porém, quando a situação for de profunda formalidade, opte pela doutrina gramatical lapidar, aquela mesma dos livros chatos e empoeirados da estante.
O Lula não foi presidente da República porque não dominava com louvor as regras do único idioma que conhece. Lula foi presidente, apesar disso.