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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O segredo


Ah, o Amor. Esse indecifrável ser, essa endiabrada criatura que nos toma pelos pés, pelos beijos e pelos abraços. Esse estranho no ninho sempre a nos empurrar para o descaminho, para o colo que jamais deveria ser hospedeiro de mais puro e abstrato sentimento. O Amor, esse louco inveterado a quebrar as vidraças e atravessar as paredes da nossa indiferença. Como quem não quer nada, lá está Ele, do alto nosso miocárdio, direcionando nosso ajuste emocional. Aí se explica a razão de tanta irracionalidade. Por que ele? Justo essa menina? Não pode ser. Mas é. (In)felizmente o Amor não se explica e não é explicável. Ele faz aquilo que quer e pronto, sem mais conversa. Por isso, a melhor forma de lidar com Ele não é enfrentá-lo, mas sim aceitá-lo. Um pouco de ingenuidade disfarçada não faz mal. Deixar o Amor comandar como se não houvesse resistência é a melhor forma de distraí-lo antes do bote derradeiro. O Amor não sabe disso (e espero que Ele não me leia), mas é possível fazer o jogo dEle, é possível ser a criança mimada dessa brincadeira de cartas marcadas. O segredo? Basta jogar, se jogar de cabeça e lembrar que não existem regras que não podem ser burladas. O Amor pode tudo, mas nós também podemos. Para tal, basta entrarmos em campo desarmados daqueles nossos preconceitos de sempre. A fórmula mágica para vencer o Amor é essa: amar de verdade e nos entregar sem medo às surpresas que nossas vidinhas nos reservam. E então, vamos tentar ou ficar esperando a próxima tirania desse irresponsável de asas?

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Apocalipse


A sensação é de que houve um apocalipse. Só vejo ruas destruídas, prédios desmoronados e corações despedaçados. Como quem não entende onde se meteu, me pego com as mãos ensanguentadas e com a poeira cobrindo meu rosto. São os sinais de culpa, de autoria criminal. Mesmo sem compreender, fiz parte de todo esse processo destrutivo, de toda essa corrupção emocional. Fui inconsequente, deixei o arroubo de um momento transformar toda minha obra em ruínas existenciais. Tudo por que lutei exterminado por meus próprios dedos, como se eu fosse um louco que rasga dinheiro e quebra cristais. No reflexo de um espelho, só vejo vergonha e vazio, sentimentos esses que nem de longe me acompanhavam em outras eras do meu passado. Talvez eu seja apenas o esboço, o rascunho mal feito de algo de que tanto me orgulhava. Agora, me sobram os restos e as raspas, os pedaços desmembrados daquilo que foi outrora tão límpido e invejável. As lágrimas não mais adiantam, o arrependimento não mais comove. Apenas revelam a tristeza por trás de quem escolheu a autossabotagem como destino de seus próprios desatinos. É a hora de se levantar e de começar a reconstrução, isso não sem antes colher as lições da amargura e os aprendizados do descaminho. O recomeço vem do reconhecimento do erro, do reexame de tudo que foi sacrificado. Não é possível marchar para frente sem observar a rastro de enxofre que ficou no horizonte. Para acertar, é preciso antes parar de errar. Tão fácil na teoria e tão dificultoso na prática do dia real. Mas que assim seja então: um acerto por turno, um infortúnio que não se completa. É desse modo, peça por peça, que grandes feitos são erigidos. Vamos, então, começar e não mais tardar. A vida segue, seja como pesadelo recordado, seja como jornada de trabalho aproveitado. A escolha é de cada um.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Contradança


Você me tocou no fogo
Incendiou meus desejos
Fez de mim tabuleiro de jogo
Agora só quero seus beijos
E sonhar com seu louco despertar
Para assim também eu enlouquecer, acordar
Estar entre suas pernas escondido
Estar entre seus lábios seduzido
Que diria o poeta nessa hora?
O que o último romântico bate à porta?
Não sei mais o que dizer, o que falar
Não há fórmula mágica para solucionar
E agora? Que me digo, que me dói?
Nada mais por dentro me corrói
Do que amar sem ser correspondido
Do que sofrer sem ser percebido
Me abraça, me sufoca, me alcança
De você mereço nem que seja a contradança
Então venha, baila comigo, me gira sob o luar
Talvez seja a última chance de, enfim, você me amar


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Triunfo amargo


A pergunta que fica no final de tudo é sempre a mesma: valeu mesmo a pena?  Valeu a pena passar por cima de suas convicções, de seus valores e de seus limites para chegar ao topo? Será que aí de cima a visão é tão sublime quanto parecia? Será que durante a jornada você não deixou nada para trás? Será que nessa subida tão íngreme e intensa você se lembrou de oferecer suas mãos para quem poderia ter lhe acompanhado? Diga, com sinceridade, mesmo vitorioso, você não sente falta de ninguém nem de nada? Será que não se sente um pouco só? Ou será que já chegou aquela sensação de vazio, aquela falta de algo que não se sabe bem o que é? Eu lhe explico, essa é a sensação que todos temos quando desejamos muito algo e abrimos mão de sermos quem somos para chegarmos lá. Em outras palavras, você chegou aonde queria, mas largou para trás sua alma, sua essência. Aí, lhe pergunto: valeu mesmo a pena? Sua felicidade, aí nas alturas, é mesmo completa, integral, irretocável? Até mesmo quando se vence, pode se perder. É o triunfo amargo, quando o êxito não chega emoldurado pela sensação de dever cumprido. Eu garanto: isso vai lhe roubar muitas noites de sono. O arrependimento vai se acumular por baixo de seus pensamentos, como se fosse poeira. E aí você vai entender de uma vez por todas: o sucesso não vai trazer a tão almejada paz de espírito, ele será apenas o começo de uma nova jornada. Jornada essa bem mais complicada e complexa, porque será a jornada do reencontro com aquilo que se perdeu em algum ponto do caminho. E então? Valeu mesmo a pena?

terça-feira, 26 de abril de 2016

Caminhos separados


Seguimos caminhos separados
Esse é o fato
Mas não é preciso se render à vista alheia
Ou filtrar seus amigos por opiniões já formadas
A beleza da vida em grupo é essa
A diversidade, a pluralidade
É entender que o outro pode ser outro
Sem que o obriguemos ao capricho de escolher
O mesmo lado que o nosso
Ser amigo é entender a diferença
E ainda assim amá-la por completo
Quando estivermos maduros o suficiente
Talvez possamos voltar a nos falar
Sabendo que a nossa diferença
É só um fator a mais a valorizar o produto
Quando abraçarmos o outro e seu próprio mundo
Aí sim seremos uma sociedade crescida
Bem resolvida, senhora das matizes
Que tingem todo o tecido humano que habita
As ruas, as praças, as vielas
Quando entendermos que não somos tudo
Abriremos espaços para o infinito
E infinitas serão as possbilidades
Que teremos de bem viver e de nos reinventar

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mera distração


O calor dos seus beijos
O vapor dos meus desejos
Condensados na mesma paixão
Assim começou e assim se deu o caso
Nossos encontros furtivos, anônimos
Entre madrugadas clandestinas
E tardes inventadas de um trabalho qualquer
Iniciamos essa história despretensiosamente
E o que era para ser passatempo
Se tornou a razão de ser do próprio tempo
E agora aqui estou, perdido, apaixonado
Sedento de seu  corpo inebriante
Mas também saudoso de nossas conversas sobre tudo
Nada escapava de sua inteligência rara
Talvez por osmose eu também tenha me tornado mais inteligente
E agora tudo acabou, se foi, como orgasmo calculado
Como faço para reaver aqueles momentos?
Por que desistiu de mim depois de tudo combinado?
O que fez você rasgar esse contrato?
Desistir tão fácil de mim, de nós?
O tempo de lamuriar está encerrado
Nada mais tenho do que o cobertor abandonado
Agora vou indo, caindo, me redescobrindo
Entre copos de bebidas amargas
Entre companhias nem tão desejadas
Agora vou revendo nossos lances
E entendendo com meus erros
Agora vi tudo tão claro, nítido
Meu grande erro, o maior deles
Foi apostar tudo em você
Na crença vã e cega, agora vejo
De que sua expectativa era igual à minha
Nunca foi, jamais será
Do alto dessa frustração paroquiana
Compreendo que entre amantes
As cartas são diferentes, o peso é desigual
E talvez nem mesmo o jogo seja o mesmo
O que para alguns é uma decisão fatal
Para outros não passa de mera distração

Em horas desinteressantes de ócio

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Próxima missiva


Vendo por meio desta
Declamar meu amor por você
Meu fanatismo por sua figura
Meu desejo insano por seus beijos
Atentos, intensos, abertos e honestos
Quando meu pensamento se encaixa
É como se você estivesse ao meu lado
Tocando meu braço, puxando meus lábios
Pensar em você não é fugir da realidade
É justamente o contrário
É ir ao encontro dela, sem medo nem receio
Nossa relação passou do cosmo das paredes
Agora ela atravessa horizontes
Desdenha dos quilômetros
Para se materializar nos sonhos
Nos seus, nos meus, nos nossos
Talvez isso não tenha nome
Muito menos sobrenome
Não me interessam os rótulos
Quero apenas acordar
Do seu lado ou não
Sabendo que meu amor tem destino certo
Que minhas cartas imaginárias de paixão
Tem uma destinatária ansiosa e aflita
Sempre à espera da próxima missiva
Sempre à espera da próxima aventura
E assim vivemos esse amor distante
E, ao mesmo tempo, tão próximo
Daquela chama, daquela quimera
Que arde nosso peito, que incendeia
O rastro de pólvora que nos liga
Como um cordão umbilical
Que transforma um singelo olhar

Na mais tentadora emoção