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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Uma luta que não terminou

 


Estou lendo um livro chamado 1968, o ano que não terminou, do inspirado Zuenir Ventura. Obra muito rica em detalhes que descreve a efervescência do movimento estudantil durante o preâmbulo da ditadura (propriamente dita) militar no Brasil. Como a História nos ensina e o mesmo livro revela, os anos passaram e o regime de controle absoluto da sociedade endureceu, com prisões, sessões de torturas e assassinatos. 

Esse momento histórico, é importantíssimo ressaltar aqui, contou com amplo apoio de grandes veículos de comunicação e de formadores de opinião que ainda são citados hoje como respeitáveis (não perderei tempo com citações para não ferir o orgulho dos mais sensíveis, mas, para quem quiser aprofundar no assunto, a internet e as bibliotecas estão à disposição).

Com a redemocratização no final dos anos 80, o país voltou a ter o direito de escolher seus representantes e a usufruir de liberdade de expressão. A juventude pôde pintar os rostos e ir às ruas gritar pela saída do presidente Fernando Collor (segundo dizem, exitoso no pleito eleitoral por realizar trabalhos de magia negra, mas, na humilde opinião de quem escreve este texto, essa magia negra atende pelo nome de Organizações Globo). 

Com o avanço das décadas e por motivos que vão além do que meu olhar crítico pode alcançar, os jovens perderam o fôlego e o interesse por reivindicar seus interesses. O olhar atento à realidade e aos rumos do meio em que vivem foi trocado pela alienação. A juventude de hoje é movida a ídolos imediatos e a relações-relâmpago, que são logo desintegradas para que haja uma nova. É assim, tudo muito rápido, cibernético e superficial, a infinitude desfrutada em um instante.

Para minha surpresa, na última sexta, dia 20, deparo-me com uma mobilização de jovens e estudantes contra o aumento da passagem de ônibus. Com muita disposição, fecharam, de forma alternada, as duas margens da Avenida Rio Branco, tornando o trânsito de um começo de noite ainda mais insuportável do que já é. Motoristas xingavam e desejavam os infernos para aqueles “jovens desocupados”, mas eles seguiam em frente, convidando todos ao debate e à análise daquela decisão política do prefeito, que, por motivos que não cabem aqui levantar, atende tão prontamente aos interesses dos empresários que controlam o transporte público em Juiz de Fora.  

Confesso que fiquei com muita vontade de aderir, de entrar no meio daquela batalha para discutir e trazer à tona as maneiras como o processo público e político é resolvido na minha cidade.  Não fui, entre outras razões, porque tinha em mãos um frágil computador portátil que não era meu. Porém, fiquei observando atentamente, hipotecando de forma silenciosa meu apoio ao que ali se desenvolvia. Os motoristas furiosos precisam entender que o incômodo e a provocação são os grandes escavadores dos questionamentos e da crítica. Devemos sentir desconforto para perceber que algo está errado e que precisa ser avaliado. Com esse intento, os estudantes foram a público e deram seu recado. 

Cabe a nós, agora, analisar friamente e ver o quão certos ou errados eles podem estar. A eleição, é bom lembrar, se aproxima e tudo o que foi feito durante os últimos quatro vai entrar em jogo para uma profunda checagem. Será mesmo que valeu a pena apostar no mesmo para encontrar uma solução nova? Isso deve ser pensado por todos nós.

Não posso terminar o texto sem apontar outro fator interessantíssimo que observei quando os jovens se mobilizaram na noite de sexta: o contraste. Quando eles irromperam a Rio Branco com apitos, cartazes e muita atitude, o Parque Halfeld era palco (havia realmente um palco instalado lá) de uma apresentação musical muito bacana da banda Zé do Black. No exato momento, eu estava ali, defronte para os músicos, curtindo o show e, de repente, me deparo com o barulho dos “rebeldes” (pelo amor de Deus, estou falando de rebeldia, não de novelinha adolescente meia boca; se for esse seu caso, só posso dizer que você está no blog errado). Na mesma hora me veio na cabeça a letra de A novidade, dos Paralamas do Sucesso com o Gilberto Gil, sublinhando aquela dúvida que pairou sobre todos ali presentes: continuar de olho no show ou voltar às atenções para o protesto dos garotos? 

Ainda sob interrogação, escutei mais duas músicas e depois ouvi de um rapaz, de Santos Dumont, que achava protestos chatos e que estava bom para ele qualquer decisão tomada pelos políticos. Na mesma hora, me despedi dele e parti para perto do protesto, observando e tomando partido na luta por mudanças contra aquilo que se julga errado. 

É estranho, pois, mesmo sendo professor, reaprendi com um desconhecido que nunca se deve deixar para os políticos as definições que queremos para nós, nunca devemos deixar para os outros a decisão que afetará nossas vidas. Se podemos falar, então que nossa voz seja escutada e que incomode até a rouquidão nos alcançar. Muitos no passado deram seu sangue para que isso fosse realidade, não desperdicemos, então, esse sagrado vermelho que foi cruelmente profanado por corruptos e torturadores.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Corações partidos


“Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito...”
(Cazuza e Frejat)

Há uma ou duas semanas, tive a satisfação de expor a minha prima Joyce Macário o que penso sobre o cenário político atual e quais são os instrumentos do quais dispomos para intervir na realidade do Brasil. O texto foi postado no Facebook e o transcrevo abaixo:


Joyce Macário, tirei meu título eleitoral de forma antecipada para votar no Lula, lá em 98. Sempre votei com o operário que foi preso pela ditadura e acreditava em um Brasil governado para as causas sociais. Pois bem, esse sonho acabou pouco depois de 2002, quando Lula e o PT revelaram suas verdadeiras faces. Por essa razão, deixei de ser petista e lulista. No entanto, continuo acreditando nas causas sociais para mudar o Brasil, continuo acreditando em um Governo que atua com senso prático e justiça. Não me arrependo de ter lutado com PT, porque eu não me arrependo da causa que adotei. Quem largou o PT foi próprio PT. Eu continuo acreditando e lutando por um país mais equilibrado, mas agora longe do PT, do PSDB e dessas siglas que, no fundo, não representam nada além de interesses particulares. Acredito na terceira via, na via que transformou a Ficha Limpa em realidade. Acho, de verdade, que isso foi só começo. A sociedade, muito além dos partidos, pode ensejar as mudanças que tanto desejamos. Tenho certeza de que estaremos juntos nessa batalha.


Pois bem, logo agora, explode o escândalo Cachoeira, envolvendo um leque amplo e variado de políticos e partidos. Mais uma vez, ratifico minha tese de que é possível fazer política sem partidos e de que é possível mudar o Brasil sem ser político.