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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Um dia qualquer


Acordei cedo. Meus olhos arderam e eu tive de correr para o banheiro. Pinguei as gotas de um colírio qualquer até minha vista normalizar. Tomei café. Café não. Uma boa, enorme e fumegante xícara de chá mate. Demorei-me com ela em mãos, saboreando cada instante e cada gole. No fim, lavei a xícara e abri o jornal. Nada muito interessante acontecia. Segui para os classificados. Um desempregado tem de olhar a sessão de empregos como uma criança observa a meia de presente atrás da porta. Nada empolgante, nada que eu soubesse fazer e nada que eu quisesse fazer. Saco. Atirei o jornal contra a mesa de centro da sala e fui até ao portão. Observei por um tempo o vaivém apressado das pessoas com horários a cumprir e chefes para lamber. Esse é o lado adorável do desemprego. Não temos compromissos nem bajulações agendadas. Ri-me um pouco ao lembrar como costumava ironizar meu antigo chefe sem que ele percebesse. Talvez ele tenha percebido e talvez, por isso eu seja hoje um ex-funcionário. Encarei o reflexo no espelho. Era como estar diante da minha mãe apontando de forma torturante cada um de meus defeitos. Escovei os dentes e passei a mão pelos fios ainda finos da barba. Aparava o rosto dia sim e dia não, mas sempre odiei o ritual. Era como se eu abrisse mão da minha masculinidade, daquilo que em parte me diferenciava das garotas. Bom, se agora eu não tinha chefe, então nada de barba a fazer. Talvez eu pudesse deixar que ela crescesse até os níveis proféticos. Seria engraçado. Mas as garotas não gostam de barbas enormes, elas envelhecem e aparentam mais idade. Ah, amanhã então eu encaro a lâmina. Vamos ver depois. Ajeitei com o cabelo com as mãos. Batidinhas aqui e ali até ficar tudo no lugar certo, cobrindo a calvície que já aparecia e, ao mesmo tempo, dando aquele toque rebelde que eu adoro. E não é que estava ótimo? Maldito good hair day logo quando eu ia ficar enfurnado em casa. Maravilha. Liguei a televisão e dei sorte. Estavam passando os gols da rodada de ontem à noite. Beleza. A tela mostrava a atualização da tabela e meu time lá embaixo, brigando para não cair. Puta merda, técnico filho da puta. Por que esse bosta do presidente não demite logo? Acho que ele já deve estar pensando no título da série B do ano que vem. Vou ao quarto, ligo o computador. Saio abrindo o primeiro MP3 que pipoca. É Twenty Years, do Placebo. Maneirinho. Agora vejo que deixei um lembrete na área de trabalho. Ah, sim. Pagar o IPVA atrasado. Devia estar com cocô na cabeça quando coloquei isso. Afinal, estou duro como uma pedra, então de onde tirar granar para pegar essa porra? Girando bolsa na esquina da Getúlio? Se fuder, porra. Agora entro nos sites de notícia e só tem a mesma chatice que já tinha lido no impresso. Olho os sites de fofoca. Tento saber quem está comendo quem. Pura futilidade. Pareço até uma mulher às vezes. Página de esportes. Sempre o mesmo de sempre e eu sempre retornando. Ah, vamos ver algo mais engraçado. Dá-lhe, YouTube. Vídeos de animais? Não. Vídeos de porradaria? Pode ser. Olha, dois anões se pegando de tapa.  Massa. Tem um outro. Garotas se beijando. É, eu sempre vejo esse. Sugeriram um de cantadas baratas e manjadas. É, talvez eu use uma dessas de noite. Deveria ter usado com a minha ex, assim ela jamais teria sido atual e eu jamais teria deixado de fazer tanta coisa. Caralho, agora vou ficar pensando nela durante algumas intermináveis horas. Não. Se o negócio é pensar em mulher, então que seja com sacanagem. Sempre tenho os endereços dos sites pornôs guardados em um txt que fica bem escondido no meio de pastas inúteis. Lembro do Cadu, que coloca a pornografia em DVDs e escreve neles coisas como “Jogo do Flamengo de 81” para a mulher não desconfiar. Gênio. Acho todo tipo de merda. Escolhi uma categoria bem pesada. Legal. Já estou entrando no clima. Será que tem alguém perto? Ah, melhor deixar isso para mais tarde. Afinal, crise de adolescência depois dos 27 é foda. Opa, chegou gente. Mudo rápido o site. Beleza. Tudo em casa. Depois, eu termino minha “visitação”. Tchau, meninas. E não é que me bate um sono de final de manhã? Custa nada dar uma deitadinha. Coisa de meia hora. Bom, o celular já está programado. Puta que pariu, já são três da tarde? Porra de telefone, me deixou na mão de novo. Desço e vejo que ainda tem um resto de comida. Requento no micro-ondas e mando goela abaixo sem muita cerimônia. Só tem refri. Que seja. Bebo e já emendo com um arroto de dar inveja ao Shrek. Que preguiça. Deixo a louça para lavar depois. Algumas horas de sujeira a mais não vão estragar o prato. Além disso, bom que ajudo a alimentar as coitadinhas das moscas. Pego um livro e dou umas folheadas. Coisa sem graça, mas eu encaro pelo menos um capítulo. É uma história de amigos de faculdade que tentam achar emprego e buscam independência financeira. Aposto que essa porra é da minha irmã. Só mesmo ela para ler essa xaropada. Passo a mão no livrinho de palavras cruzadas do velho. Tudo já feito. Acho que tenho de arrumar outra distração. Telefone toca. Um velho amigo querendo sair de noite. Talvez eu saia. Ele prometeu tentar levar umas garotas. Se ele cumprisse essas promessas, a essa altura eu teria uma mulher para cada dia do ano. Ligo a TV. Bom, está passando mais uma reexibição de Two and a Half Men. Se fosse a temporada com aquele fresco do Ashton Kutcher, já teria mudado. Mas é com o Charlie Sheen. Bons tempos. Porra, que inveja do personagem dele. Dinheiro, casa de praia, chicas de todos os tipos e muita bebida. Só não quero as doenças venéreas dele. De resto, pego tudo. Zapping time. Passando reprise de Malhação no canal Viva. Temporada de quando eu era mais jovem, tipo uns 17 anos. Na época, já achava a história infantil. Hoje acho que podia disputar horário com o Teletubbies. Vamos tentar outro canal. Ah, ESPN. O mauricinho do Mauro Cezar Pereira falando merda. Outra tentativa. Passando alguma das intermináveis continuações de Premonição. É sempre a mesma historinha furada. Cansei do cabo. Estico a mão e abro a janela. Consigo ver meu garoto reluzindo na garagem. Sua cor vinho está impecável. Esse cara é lindo. Não à toa que as garotas não resistem. Acho que dá para dizer que ele já transou mais do que eu. Bom, deixa ele lá, descansando. Afinal, o rapazinho vai ter trabalho para mais tarde. Não me esqueço de quando o comprei. Tinha sido demitido da empresa e estava sem namorada. Então o que eu fiz? Peguei toda a grana da rescisão e do fundo de garantia e torrei no meu bólido. Foi uma estupidez sem tamanho. Eu tinha certeza de que outro trabalho não demoraria a aparecer. Que nada. Estou até hoje tentando. Claro que de vez em quando aparece um bico, mas não é coisa que permita pagar seguro, IPVA, etc. Talvez eu tenha que vendê-lo. Vamos ver. Acho que é hora de malhar. Como não tenho grana, transformo meu quarto em uma academia. Tenho dois halteres que peguei de segunda mão e uma barra de flexão afixada na soleira da porta. É o suficiente. Esses exercícios sempre me deixam de mau humor. Uma chuveirada não é mau negócio. Enxugo cada cantinho com muito cuidado. Odeio micoses e frieiras. Claro que odeio ou alguém vai ter fetiche por essas coisas? Um desodorante para garantir o cheirinho da noite. Internet mais uma vez. Fuço uma página de concursos para ver o resultado da minha última prova. Bosta. Fiquei lá embaixo na classificação. Para entrar, só um milagre político. Um cremezinho para deixar o cabelo legal e um pouquinho de hidratante para as mãos e o rosto. Eu sei que é meio gay, mas ser vaidoso faz a diferença. Pronto. Abro o guarda-roupa e passo o olho por todas as camisas. Algumas apertadas demais, outras de menos. Achei uma que vai servir. Pego o primeiro jeans que vejo e completo o look com um tênis cinza. Olhadinha no espelho para conferir. É, tudo certo. Lindão. Ops, esqueci o perfume. Umas boas espirradas e agora sim. Tiro o carro da garagem me sentindo o Vin Diesel. Furioso e veloz (para os meus padrões). Meu amigo já está me ligando feito um louco. Ele que espere. Afinal, dez minutinhos de atraso não matam ninguém. Cheguei. Barzinho meia boca. Brahma no copo e cadê as garotas? Não vieram por que uma teve uma estratégica crise de enxaqueca. Que delícia isso. Meu amigo e eu tomamos a cerva e falamos dos mesmos assuntos de sempre. Tudo igual. O telefone dele toca. Parece algum rolo mal resolvido resolvendo dar-lhe uma nova chance. Ele se manda. Eu também tomo mais alguns copos e puxo o carro. Uma ligação. Amiga de longa data. Muito tempo sem vê-la, por que liga justamente nessa noite? Pelo sim, pelo não e por não ter nada melhor a fazer, fui vê-la. Ela marcou em um boteco na Zona Sul. Lá, a vejo com dois caras: um careca e um mais velho, com uma touca estranha na cabeça. Pego uma cadeira e tento entrar na roda. Conversa estranha. Abstrata demais para um cara que só curte cerveja e vodka. Fico na minha, só de orelha acesa. Quando tem a brecha, participo da conversa. Aos poucos, vou cavando uma vaga no time titular. Um deles vai ao banheiro e o outro se levanta para pegar fogo. Legal, porteira escancarada. Convido a tal amiga para irmos a outro barzinho. Caminho livre. Não tem penetras, bicões nem velas. Tento beijar, ela se afasta, mas sorri destilando cumplicidade. Vou pegar. Tenho certeza. Abraço e vou aproximando meu rosto, primeiro por baixo, pelo pescoço. Ela se arrepia. Vou subindo. Novos tremores. Deixo meus lábios deslizarem até tocar os dela. Novo afastamento e um sorriso ainda mais convidativo. Vamos para o carro. Lá, ela acende um cigarro e fala bobagens sobre vida e fé. Eu apenas olho sua boca se movendo. Vou dar o bote. Ela sorri, mas evita o beijo. Tiro a camisa. Ela apenas me olha, sem entregar o ouro. Eu sei que ela está a fim. Passo meu braço por cima do ombro dela e a trago para mim. Ela se esquiva, diz que não e me sorri. Hora de acabar com a brincadeira. Coloco uma baladinha no som e espero que ela baixe a guarda. Show, ela se inclina no banco, ficando em um ótimo ângulo para eu desabar com tudo. Porém, com um olhar esperto, ela prevê o movimento e me deixa cair de cara no banco. Ri do meu desastrado ataque e manda beijos com a mão direita antes de ir embora. Fico olhando, balançado entre frustração e revanchismo. Mais um dia qualquer da minha vida chega ao fim. Amanhã tem mais.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Amizade possível?


Muito já discutiu nas rodinhas de café e nas mesas de boteco sobre a amizade entre homens e mulheres. Será mesmo que rola essa amizade sincera e sem interesses sexuais entre os caras e as garotas?
Bom, o primeiro ponto que vale ressaltar é que pode haver sim amizade entre homens e mulheres, mesmo que exista lá no fundo a esperança de algo a mais. Não faz mal achar uma amiga bonita e pensar que um dia poderia rolar algo, se os dois assim desejarem. Duas pessoas não vão para cama porque são amigas, mas, por serem amigas, isso não quer dizer também que nunca vá rolar. É uma questão de interesses comuns em momentos coincidentes.
Por uma perspectiva masculina, me arrisco a dizer que os homens, todos eles, carimbam as amigas. Carimbam como? Com aquele invisível, mas existente selo de pegabilidade. Em outras palavras, os caras rotulam as amigas entre aquelas que ele pegaria e as que ele não pegaria.
Tudo bem, é normal isso da parte masculina (na qual me incluo). Não significa que um rapaz fica às escondidas babando pelas amigas que conquistou. Não é assim que funciona. Amiga é amiga, mas, um dia, quem sabe, com os dois carentes em uma mesma época, role algo? É assim que pensamos, na segura e infalível nuvem de possibilidades.
Outro ponto importante é que os homens, falo sério, respeitam muito essa linha limítrofe entre a amizade e a pegação. Um cara que tenta avançar o sinal com uma amiga sabe muito bem que não vai mais tê-la como amiga, independentemente do que aconteça. Se rolar, vira rolo ou amizade colorida (que de amizade mesmo não tem nada); se não rolar, vira frustração, pois a menina vai pensar que o rapaz não sabe a diferença entre ser gentil e dar mole, enquanto ele vai se sentir feio e/ou rejeitado.
Como vocês podem perceber, é complicado misturar amizades e sentimentos. Meninas e rapazes podem ser amigos até que role algo, depois disso a coisa se confunde e vira uma geleia imperscrutável. Portanto, meninas, antes de dar mole para um amigo em um arroubo de carência, pensem bem se vale a pena tê-lo como amante, pois ele nunca mais vai conseguir enxergá-las apenas como coleguinhas. Rapaziada, conecte o cérebro na tomada antes de cair matando nas amigas porque há o risco de ficar no vácuo e com uma indelével fama de sem noção.
Então, façam as contas e vejam o que vale mais a pena: um(a) amigo(a) ou um(a) peguete? Sei que essa aritmética vai variar muito de pessoa para pessoa, dependo ainda da circunstância e do(a) amigo(a) em questão, mas é um cálculo obrigatório no delicado mundo das costuras sociais. 

OBS: Segue abaixo a trilha sonora desse texto.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Não julgue


Não vou enrolar muito com introduções. Tentarei ser direto, embora isso seja difícil para quem acha beleza na forma, no conteúdo e no encadeamento das palavras. Enfim, o título que vocês podem ver aí em cima vem do filme “O que esperar quando você está esperando”. Trata-se de uma história baseada na experiência (às vezes apoteótica, às vezes caótica, mas sempre epifânica) de ser pai e mãe.
Não vou falar sobre o filme, OK? Odeio estragar surpresas e isso vocês podem encontrar em sites especializados na sétima arte. Vou falar é de uma parte dele. Precisamente, sobre um grupo de pais que se encontra para conversar e discutir os problemas e as soluções no relacionamento com os filhos. Esses pais têm regras muito claras para quem participa das reuniões e uma delas é não julgar. Ou seja, é proibido que um pai condene o outro moralmente por alguma falha cometida com o filho. O grupo parte do princípio de que não são todos perfeitos e, por isso, unem-se para buscar soluções e apoio mútuo.
Seria legal um dia fazer um dad tour com meus amigos Ricardo Peluso, Eduardo Antunes, com meu primo Diego e com meu irmão Davi, mas isso é assunto para outra circunstância. O foco aqui é no pressuposto do não julgamento. Quantas vezes (me incluo nessa) perdemos um tempo sagrado julgando e condenando? As pessoas, sinceramente, não precisam disso. Já tem muita gente apontando nossas falhas e equívocos, chafurdando o indicador no sangue da ferida.
Sendo assim, acho que é muito mais produtivo encontrar as pessoas e debater como os mesmos erros podem ser evitados, como nossos tropeços podem ser usados para impedir deslizes alheios. Seres humanos realmente se fortalecem quando buscam saídas para os labirintos da vida e não quando se apressam em crucificar quem meteu os pés pelas mãos.
Então, fica uma valiosa lição. Não perca tempo metralhando seus vizinhos, parentes, colegas de trabalho e amigos. Ofereça soluções para os problemas deles e procure aprender com o erro dos próximos, afinal, o mundo é pequeno e o mesmo nó que está no cadarço de outra pessoa pode aparecer no seu sapato amanhã.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Tudo ou Nada




Edu levava a vida numa boa. Depois de encerrar um longo relacionamento, dedicava-se com estoicismo às bebedeiras e às garotas. Todas as noites eram temperadas de extravagâncias e de sexo. Nunca mergulhara tão fundo no labirinto da luxúria e da perdição.

Uma rotina baseada em uma liberdade incontida, um carpe diem sem hora ou lugar para acontecer. Um dos principais aliados do rapaz era a internet. Através de chats e redes sociais, ele conhecia as moças e os points. Sempre tinha onde e com quem ir.

Em uma dessas interações sociais, conheceu Soraya. Uma jovem bonita e cheia de sonhos. Começaram a sair e logo se envolveram. Edu, no entanto, sempre fazia questão de frisar que não era sério. Nada além de curtição, boa companhia e sexo agradável. Soraya concordava, procurava não se iludir, mas seus sentimentos por ele cresciam cada vez mais.

Um dia, Edu apareceu magoado, carregando uma tristeza que parecia impossível. Chorou nos braços de Soraya, desabou suas dores no colo da parceira de noites e amanheceu sob os carinhos de mãos femininas.

Depois daquela noite, algo mudou. Edu distanciou-se. As ligações e os papos virtuais rarearam de forma repentina. Soraya tomou o impulso de ir atrás, mas domou seus instintos e deixou que o tempo passasse. Decerto, se Edu se afastou, foi por razões que não cabem a ela, talvez precisasse de um período sabático para reencontrar algo em si.

Meses depois, Edu reapareceu. Soraya não se importou com perguntas. Apenas saíram e deliciaram o que podiam proporcionar mutuamente.  Deitado com a cabeça da moça sobre o peito, Edu respirou fundo antes de falar: - Tô namorando.

Soraya sentiu o chão desmanchar. Por alguns segundos, perdeu os sentidos e o senso de direção. Refeita, após a martelada em seu coração, arguiu: - Achei que você não queria nada sério. Mas, na verdade, você não queria nada sério era comigo, não é?

Edu passou a mão pelos cabelos ondulados e depois coçou a barba por fazer: - Não é isso. Eu não queria nada sério com ninguém. Mas certas coisas acontecem e não podemos fugir delas.
Antes de questionar, Soraya contou até dez: - Ela tá grávida?

Edu endureceu o olhar e sua expressão petrificou-se: - Não. Ela não tá grávida e eu não estou apaixonado. Mas, como disse, de certas coisas eu não posso fugir. E também não posso falar o porquê.  Só posso mesmo te dizer que estou namorando.

Com as mãos na cintura, a garota interrogou: - E você está me contando por quê? Qual o sentido do que aconteceu agora?

O rapaz manteve o olhar rígido: - Contei porque, se a gente for continuar se vendo, vai ter que ser nessa condição.

Soraya conseguiu conter as lágrimas por pouco: - Condição de amante, né? Condição de vadia pra você se divertir e sair da monotonia do namoro, né?

Com discrição, Edu engoliu a seco: - Sei que não é fácil nem justo, mas as coisas aconteceram dessa forma. Não pude evitar.

Gestos dramáticos sublinharam as palavras que escapariam dos lábios de Soraya: - Eu posso mesmo entender que você está com outra, que você preferiu outra pessoa. Mas do jeito que você fez, do jeito que você me tratou, isso não é algo que se faça com uma garota, mesmo que ela não seja sua namorada nem sua amiga. Você tem ideia de como vou sentir quando essa ficha cair? Você sabia que vou passar meses me sentindo usada, me sentindo um lixo? Parabéns, se você queria me arrasar e acabar com tudo aquilo que eu podia te proporcionar, você conseguiu. Mas não foi exatamente pelo que você fez, mas pelo jeito com que você fez.

Não restou nada a Edu dizer. Ele apenas rebaixou os olhos e a cabeça, como quem reconhece um erro e pede desculpas. Os meses se passaram e os dois não se viram por um bom tempo. Pode até ser que não se vejam mais, mas pode ser também que se reencontrem com o furor acumulado por tantos dias de afastamento mútuo.

Quem sabe o que será do Destino desses jovens amantes? Tudo ou nada estão logo ali, de braços cruzados, em uma esquina qualquer, esperando a chance para embarcar nas narrativas que cada um carrega consigo a cada vez que se levanta pela manhã ou pela noite.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pegabilidade



Quando discorri semanas atrás sobre a diferença entre garotas assanhadas e safadas, falei em determinado ponto do texto que homens não separam as mulheres entre feias e bonitas, mas sim entre as pegáveis e as não pegáveis. Disse também no mesmo texto que uma mesma mulher pode variar de acordo com tempo e o espaço de uma condição para a outra, não foi?
Bom, então chegou a hora de levar esse tema adiante. A verdade é que, para nós homens, mulheres não são estáticas, mas sim “metamorfoses ambulantes”, criaturas em constante rotação no ciclo dialético (agora tive que gastar uma dose barata de filosofia). Em outras palavras, podemos mudar de opinião sobre o sexy appeal de uma moça de uma hora para outra. Basta uma tintura nova nos cabelos, um decote mais ousado, uma maquiagem estilosa ou até mesmo um velho e bom par de óculos de grau (admito, não resisto ao charme de uma nerd arrumadinha).
Não dá para negar que todo homem adora o efeito Cinderela. Todos adoramos ver o patinho feio se transformando no vistoso cisne. É magnético quando um homem vê aquela garotinha baranga de tempos atrás toda arrumada e bem produzida. Bate uma vontade irresistível de dizer “oi” e jogar um charminho básico. Se colar então, rende história para um ano inteiro nas mesas de bar.
Do mesmo jeito que uma sapa pode se tornar princesa, o contrário também acontece. Logo, nada impede que aquela gata coqueluche dos tempos de faculdade acabe por se formatar na encalhada da hora. É por isso que defendo a tese de que mulher tem de ser vaidosa sim, tem de se cuidar, fazer as pazes com espelho. E quando digo isso, não digo que a mulher tem de ser fútil e se preocupar apenas com a embalagem. Digo isso no sentido de que a mulher deve ter o cuidado mínimo consigo mesma, deve praticar um ritual de amor por si mesma, que serve para recarregar suas baterias sexuais e sua autoestima. Simples assim.
Portanto, mulheres devem sempre se manter em alerta. Pois o tempo passa, o desânimo bate e aí os papéis se invertem. Bom mesmo, para nós homens, seria termos todas as garotas bem resolvidas e de alto astral, cada uma cuidando de sua própria beleza e sabendo cultivar aquilo que tem de melhor. Isso faria todas estarem em escala máxima de pegabilidade.
Para não dizer que sou machista, igual lógica se aplica para os homens. Não devemos relaxar com a estética e permitir o avanço da calvície e da barriga de chopp. Homem também tem de se cuidar para não fazer feio com a mulherada (foi-se o tempo, moçada, em que só a conta bancária garantia o sucesso com as garotas. Hoje elas são independentes, por isso, dinheiro não garante nada.)
O lado bom de toda essa história é que todos têm sua própria beleza e sua própria feiura. Viver exige saber cuidar de si mesmo, não havendo ninguém totalmente perfeito ou totalmente defeituoso. Portanto, encare o espelho, redescubra e desenvolva suas maravilhas e vá ao jogo. Sempre existe espaço para mais um(a) player no ambiente da sedução.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Uma luta que não terminou

 


Estou lendo um livro chamado 1968, o ano que não terminou, do inspirado Zuenir Ventura. Obra muito rica em detalhes que descreve a efervescência do movimento estudantil durante o preâmbulo da ditadura (propriamente dita) militar no Brasil. Como a História nos ensina e o mesmo livro revela, os anos passaram e o regime de controle absoluto da sociedade endureceu, com prisões, sessões de torturas e assassinatos. 

Esse momento histórico, é importantíssimo ressaltar aqui, contou com amplo apoio de grandes veículos de comunicação e de formadores de opinião que ainda são citados hoje como respeitáveis (não perderei tempo com citações para não ferir o orgulho dos mais sensíveis, mas, para quem quiser aprofundar no assunto, a internet e as bibliotecas estão à disposição).

Com a redemocratização no final dos anos 80, o país voltou a ter o direito de escolher seus representantes e a usufruir de liberdade de expressão. A juventude pôde pintar os rostos e ir às ruas gritar pela saída do presidente Fernando Collor (segundo dizem, exitoso no pleito eleitoral por realizar trabalhos de magia negra, mas, na humilde opinião de quem escreve este texto, essa magia negra atende pelo nome de Organizações Globo). 

Com o avanço das décadas e por motivos que vão além do que meu olhar crítico pode alcançar, os jovens perderam o fôlego e o interesse por reivindicar seus interesses. O olhar atento à realidade e aos rumos do meio em que vivem foi trocado pela alienação. A juventude de hoje é movida a ídolos imediatos e a relações-relâmpago, que são logo desintegradas para que haja uma nova. É assim, tudo muito rápido, cibernético e superficial, a infinitude desfrutada em um instante.

Para minha surpresa, na última sexta, dia 20, deparo-me com uma mobilização de jovens e estudantes contra o aumento da passagem de ônibus. Com muita disposição, fecharam, de forma alternada, as duas margens da Avenida Rio Branco, tornando o trânsito de um começo de noite ainda mais insuportável do que já é. Motoristas xingavam e desejavam os infernos para aqueles “jovens desocupados”, mas eles seguiam em frente, convidando todos ao debate e à análise daquela decisão política do prefeito, que, por motivos que não cabem aqui levantar, atende tão prontamente aos interesses dos empresários que controlam o transporte público em Juiz de Fora.  

Confesso que fiquei com muita vontade de aderir, de entrar no meio daquela batalha para discutir e trazer à tona as maneiras como o processo público e político é resolvido na minha cidade.  Não fui, entre outras razões, porque tinha em mãos um frágil computador portátil que não era meu. Porém, fiquei observando atentamente, hipotecando de forma silenciosa meu apoio ao que ali se desenvolvia. Os motoristas furiosos precisam entender que o incômodo e a provocação são os grandes escavadores dos questionamentos e da crítica. Devemos sentir desconforto para perceber que algo está errado e que precisa ser avaliado. Com esse intento, os estudantes foram a público e deram seu recado. 

Cabe a nós, agora, analisar friamente e ver o quão certos ou errados eles podem estar. A eleição, é bom lembrar, se aproxima e tudo o que foi feito durante os últimos quatro vai entrar em jogo para uma profunda checagem. Será mesmo que valeu a pena apostar no mesmo para encontrar uma solução nova? Isso deve ser pensado por todos nós.

Não posso terminar o texto sem apontar outro fator interessantíssimo que observei quando os jovens se mobilizaram na noite de sexta: o contraste. Quando eles irromperam a Rio Branco com apitos, cartazes e muita atitude, o Parque Halfeld era palco (havia realmente um palco instalado lá) de uma apresentação musical muito bacana da banda Zé do Black. No exato momento, eu estava ali, defronte para os músicos, curtindo o show e, de repente, me deparo com o barulho dos “rebeldes” (pelo amor de Deus, estou falando de rebeldia, não de novelinha adolescente meia boca; se for esse seu caso, só posso dizer que você está no blog errado). Na mesma hora me veio na cabeça a letra de A novidade, dos Paralamas do Sucesso com o Gilberto Gil, sublinhando aquela dúvida que pairou sobre todos ali presentes: continuar de olho no show ou voltar às atenções para o protesto dos garotos? 

Ainda sob interrogação, escutei mais duas músicas e depois ouvi de um rapaz, de Santos Dumont, que achava protestos chatos e que estava bom para ele qualquer decisão tomada pelos políticos. Na mesma hora, me despedi dele e parti para perto do protesto, observando e tomando partido na luta por mudanças contra aquilo que se julga errado. 

É estranho, pois, mesmo sendo professor, reaprendi com um desconhecido que nunca se deve deixar para os políticos as definições que queremos para nós, nunca devemos deixar para os outros a decisão que afetará nossas vidas. Se podemos falar, então que nossa voz seja escutada e que incomode até a rouquidão nos alcançar. Muitos no passado deram seu sangue para que isso fosse realidade, não desperdicemos, então, esse sagrado vermelho que foi cruelmente profanado por corruptos e torturadores.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Beijos de verdade


Wilson Sideral: - "Eu parei no meio disso tudo
                Como se soubesse que algo ia acontecer
                Ela olhou com aquele jeito de quem vai
                Dizer palavras roubadas de uma canção..."

Fê: - Eu não sei se um di vou poder olhar pra trás e dizer que acertamos em tudo, mas saiba que estarei muito feliz por ter vivido isso tudo com você.
Dan (Entre lágrimas e sorrisos, beija-lhe as mãos e lhe endereça um olhar entremeado de cumplicidade)

Wilson Sideral: - "Recarregue as suas baterias e suas armas
               Você vai precisar disso pra ser feliz
               Limpe os bolsos e as suas mãos
               Eu posso te dar muito mais do que você
               Pensa ser alegria..."

Dan: - Se tudo der errado, não vou querer que você chore, vou querer que você acredite que fez o melhor que pôde. Você sabe que eu vou estar aqui sempre, que vamos passar por isso tudo juntos. Você pode acreditar: vamos colher juntos os frutos que estamos plantando agora, nessa fase difícil e cheia de adversidades.
Fê (Resistindo ao pranto, abraça o rosto dele com as mãos, aproximando almas e corações)

Wilson Sideral: - "Eu posso te dar muito mais que uma noite
                Eu posso te dar mais que sensação
                Eu posso te dar muito mais que alergia
               Eu posso te dar alegria..."

Fê: - Você sabe que aquilo não deve ser o ponto de partida pra fazer algo que não quer. Por mais que a gente esteja junto, você não é obrigado a ficar comigo pra sempre.
Dan: - Eu não sei se ficaremos juntos pra sempre, mas vamos ficar juntos sempre por tudo aquilo que nós construímos, por cada momento especial juntos, sabendo que depois virá outro ainda melhor. É por isso que estamos juntos, porque sempre queremos um ao outro.

Wilson Sideral: -  "Sabe o que ela quis foi me dizer
                Acredite em você, não vá desistir dos seus sonhos
               Faça o que você tem que fazer
               E me dê um beijo, um beijo sem mentira..."

Dan: - Não importa onde você estiver, não importa como for, mas sempre se lembre de que você nunca pode abrir mão daquilo que você quer. Você não pode desistir de si mesma.
Fê (Desabando em lágrimas, abraço o namorado e o beija com gosto de adeus ou boas-vindas)

Wilson Sideral: -  "Pare um pouco, pense em você
                O que você está fazendo da sua vida
                Pense na infância, no começo, nos planos dos seus pais
                Você é bem mais que isso
                Muito mais que uma noite de piração
                O que você vai levar dessa noite?
                Beijos, doces, balas e aquela sensação...
                Será que acabou? E agora o que você...
               O que você faz quando a noite acabou?
               O que você vai fazer?
               O que você faz quando a noite acabou?
               O que você vai fazer?..."

Fê: - Eu não sei se queria mesmo ir naquela festa, fico feliz de você estar aqui comigo. Fico feliz de você estar bem agora. Mesmo com tudo dando errado, não deixa nada te abalar, tá? Você é muito especial e sempre vai dar a volta por cima.
Dan (Com um olhar intumescido, a toma pelas mãos e a encara de maneira oblíqua): - A gente podia namorar.

Wilson Sideral: -  "Sabe o que ela quis foi me dizer
                 Acredite em você, não vá desistir dos seus sonhos
                 Faça o que você tem que fazer
                 E me dê um beijo, um beijo sem mentira...

                Faça o que você tem que fazer
                E volte pra casa amanhã (Especial ) Depois
                Faça o que você tem que fazer
                E me dê um beijo..."

Fê: - A gente já passou tanta coisa junto que parece que te conheço há uns 10 anos. Parece que você sempre fez parte da minha vida.
Dan: - É porque, de alguma forma, a gente está mesmo junto por toda uma vida. Toda uma vida ainda é pouco com você, meu amor. Eu prefiro a eternidade.