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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Dilemas



Já estamos há tempos nesse embate. Trocamos muitos socos, praticamos esmero pugilato. Meus olhos estão roxos, o nariz torto e o lábio rachado. Você também está ferido. Testa cortada, dente quebrado, maxilar ferrado. Mas não desistimos e continuamos digladiando, como ferozes deuses em uma arena romana.

De longe, ela apenas sorri, enquanto pateticamente lutamos. Mas qual a graça, qual a comédia dessa batalha tão horrenda? Talvez a resposta seja tão óbvia quanto uma piada. Ela ri porque não temos nada. Não importa quem vencer essa parada. Ela não será minha nem sua. Ali, também gargalhando, já está outro cara. O terceiro elemento, o novo afortunado.

E assim aprendemos que não adianta brigar por quem não mais temos. Machucados e abraçados, encerramos a contenda e fomos embora para casa. Não sem antes de, envergonhados, vê-los se beijando enquanto ficamos na amargura. É assim que sempre termina para quem acha na violência a solução dos dilemas que a vida nos apresenta.

Vista serrana



Não. Você não está perdida. Talvez esteja apenas momentaneamente desiludida. Mas isso passa, assim como toda tragédia e toda farsa. O panorama nebuloso cessará da vista serrana assim que você se puser de pé à terra plana. Ou seja, quando você sacudir a poeira e arregaçar as mangas da existência pós-real. Pois o que lhe deve o caminho do sucesso é o pós-real e não o presente factual com suas tantas falhas e incongruências. É ali na frente, no vislumbre de uma manhã ensolarada, que estarão as soluções contornando todo esse nada. E nada a ver mesmo esse momento atual de desilusões e desesperos, de abismos e sobrepesos. O seu melhor momento está ali, mas você precisa enxergar e apanhar. Ele está à sua espera, mas ele não pode te alcançar unilateralmente. É preciso que você se enfrente e limpe sua mente de tudo que não agrega. E com a bagagem leve e a coluna firme, você reencontrará seu oásis. Sim, aquele que esteve sempre ali, bem pertinho. Onde você depositou seus sonhos, onde você plantou seus amores e onde você descobriu suas paixões. É o cantinho da felicidade, para onde você costumava se refugiar diante da escuridão do luto e do pessimismo. Mas nada deve lhe tirar do rosto o sorriso. Você só precisa reaprender a caminhar, a jogar fora as rodinhas da bicicleta com qual a vida lhe equipou. É no que você tanto deseja que ressona o que lhe salva. Então se salve, agarre a tábua e saia desse pantanal. As suas realizações ainda são possíveis, ainda são construíveis. Mas você tem de resgatar aquela confiança, aqueles sentimentos seguros e sóbrios que a acompanharam por toda a infância. Você cresceu, mas seus ideais não morreram. Eles continuam lá. Não importa no que você acredita, mas é importante acreditar, ter convicção e renascer pelo que move seus sentimentos. A vida é feita por quem abraça a causa e se apega ao futuro. Derrotistas e capachos são apenas exceções justificando a própria regra, que é ser feliz e crer no melhor sempre.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Sobreaviso



Você chegou diferente. Olhos perfumados e cabelos tingidos de rosa. Por dentro, eu ri e achei um tanto estranho. Mas você não estranhou quando me vi por instinto te beijar. Talvez tenha sido o efeito da pinta que sublinha sua boca, talvez tenha sido a vontade de ver se havia alguma outra mudança além da cor dos seus fios. Nossos lábios se agarraram brutalmente. Trocaram golpes de língua, como guerreiros espartanos em sangrenta batalha. Você arrancou minha camisa, rasgou meu tecido e lambeu meus mamilos. Eu te joguei sobre a mesa, destruí seu sutiã e me aventurei no seu busto. Depois, escorreguei por meio de suas pernas e sequestrei seu clitóris. Você se retorceu como uma serpente e com as mãos sacudiu meu caralho. Depois, me sugou e me engoliu em um rompante orgástico. Eu não resisti. Fiz você subir e ondular sobre meu corpo. Gritamos, uivamos, enlouquecemos. E quando nossos orgasmos coincidiram, em uma explosão de porras condensadas, nos lembramos, por um momento, onde estávamos. Era minha sala, minha mesa de trabalho. Dali em diante, nada mais tinha sentido e tudo estava valendo. Transar com você era livre de todos os perigos. Não importa que você fosse casada, não importa que eu fosse seu associado. Apenas gozávamos e nos permitíamos tudo aquilo que por muito tempo nossos desejos tanto camuflaram. Agora não mais. A toda hora você vinha me chupar, onde eu estivesse não importava. E vivemos essa relação errada, grotesca e intensa até que nossa noção de sobreaviso retomou de onde nunca deveria ter saído. E tudo voltou a ser como era antes. Ainda que, de tempos em tempos, nossos olhares se busquem em flagrante tesão mal resolvido.

Fantasma



Eu vejo um fantasma por trás de uma estaca metálica. Eu vejo seu espectro flutuando sobre a paisagem. Meu corpo se toma de pânico e pesadelo. Ele me encara agonicamente. Eu fico aflito, começo a suar frio. Ele esboça um sorriso. Eu apenas paraliso. Ele balança a cabeça e consigo perceber seus cabelos balançar. Um sentimento de terror me rouba o fígado. Lágrimas meu rosto inundam. Luzes pulsam violentas no horizonte. Ele apenas mexe os lábios de maneira sinistra e intransitiva. Para depois descer a ladeira quando a manhã se avizinha. Junto a ele, uma horda de zumbis também deixa o recinto. E eu fico em estado de êxtase e assombro. Sinto que está tudo declinante, que corro perigo. Até que o segurança me alerta que a boate está fechando e eu preciso me retirar.

Revelação



O que você achou? Dos versos, dos terços, dos sorrisos, dos abraços... De tudo que te dei de coração aberto e espírito livre? Será que você, mesmo por um segundo, se entregou ou ficou comigo só por vaidade? Será que houve alguma verdade em tudo que vivemos? Fico com esse gosto amargo na boca, com essa sensação insossa de ter vivido algo pela metade. Eu não sou assim, eu sou intensidade, sou natureza, sou plenitude. Não quero ficar com essa ânsia, com essa angústia. Por isso, deixo você ir. Deixo você se guiar. Que seus sonhos sejam mais profundos do que essa xícara em que você nos mergulhou. Que seus textos sejam mais verdadeiros do que suas atitudes. Enfim, que você seja para outro alguém uma pessoa melhor do que foi para mim. Você merece ser mais do que tem sido e quem estiver com você também merece isso. Apenas faça por onde e faça valer. Você é bem mais do que esse esboço triste com quem convivi nos últimos meses. Tenho certeza de que há uma pessoa acesa e pulsante por trás desse olhar frio e vazio. Apenas se permita mais porque você tem muito mais a revelar do que a esconder.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Resto de nossas vidas



É hoje. Eu e você. Juntos finalmente
Meu coração dispara, acelera em linha reta
Minha respiração fica intensa, sufocada
Mas você é leve e rara, linda e inusitada
Suas mãos buscam as minhas e tudo se acalma
Meus pensamentos são seus prisioneiros
E minha fé tem em você a sacerdotisa óbvia
Os dias vão ficando doces e serenos
E as noites se tornam chamas incendiárias
Quanto mais conheço, mais falta conhecer
Quanto mais eu vejo, mais eu quero rever
Você é o jogo que nunca termina
O brilho que me ilumina
Com você, tudo é melhor e mais nítido
Tudo é diferente e produtivo
Sinto que é meu destino, minha história
Estaremos juntos e será uma vitória
Ter você comigo para correr todos os riscos
Enquanto bebemos cerveja e de nós mesmos rimos
Juntos enfrentaremos um mundo de desafio
Mas não teremos medo de encontrar o vazio
Porque em você eu encontrei as respostas
Para as perguntas que nem mesmo existiam
E meu coração por você já batia
Sem que eu me desse conta de que esse dia chegaria
Nosso dia, nosso encontro, o date para o resto de nossas vidas

Chegada



Enfim, chegamos. Mas a chegada não representa o fim. Ela apenas marca o fim de um ciclo para que outro se inicie. E todo (re)começo é pontuado por inseguranças e calafrios. Isso é normal, faz parte de nossa humanidade. Só não podemos nos entregar ao medo e deixar de seguir no caminho. Uma nova chegada nos espera, mas só é possível quando respiramos fundo e vamos com tudo. Que esse novo ciclo seja o início de uma era de prosperidade e bonança. Não há mal que não passe ou tristeza que se eternize. Tudo passa e tudo recomeça. E assim podemos ter a chance de transformar os erros em acertos ou de melhorar aquilo que já estava correto. O importante é se oportunizar sempre, sem receio do porvir e sem largar a fé. O caminho pode ser longo e desafiador, mas nunca estamos sozinhos. A vitória é certa, só depende de continuarmos convictos e unidos. Até o fim.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Grito



Sufocante sinceridade narcisista
Estampada nas fotos de um vício
Na estradas das redes antissociais e patológicas
Vamos vomitando vazio, vamos desenhando discos
Que nunca serão escutados de maneira ativa
Que nunca serão lembrados de maneira reflexiva
Estamos flertando com o caos, com o desnível
Mal percebendo que de post em post
Estamos nos transformando em aparência
Sendo seduzidos pelas lentes e não pelo espírito
E assim, nessa vida de ócios oscilantes
Desimportamos que uma hora chega o grito
Seja em forma de depressão devastadora
Ou de um estouro que prediz o advindo tiro
E as tragédias que se somam e se sucedem
A poucos comovem e a pouquíssimos interessam
E, no final, sobram só as lágrimas temperadas
De quem pouco caso fez pelas perdas
E agora pranteia por que enfrenta a própria cruz
Sem o alívio imediato de uma esperançosa luz

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Pulsão




O gozo, a dor, a porra e o pó
Tudo junto e misturado
Somos terrível e quimicamente castrados
O fogo, a faca, a força e o fim
Tudo puro abstrato substrato
Para enganar quem percebe se iludir
Sinestesicamente: perdemos, encontramos
Damos, fodemos, sofremos, jorramos
E que toda pulsão caralhística
Seja mais por dínamo de tesão pecaminoso
Do que por culpa de moralismo reprimido
Não obedeça às regras do prazer definido
O prazer é o início e o fim do próprio vício
É autofágico e autofálico
É o pau que enraba o próprio cu
É o cu que goza como água
O filme só acaba quando a tela escurece
O jogo só se encerra quando o apito indica
E o sexo só termina quando o esquife se aproxima