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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Viver é para ontem


                      Eu não sei o que é olhar para trás. Não que eu nunca tenha feito, mas, quando o fiz, não me fez bem. Olhar a vida pelo retrovisor é perigoso, causa vertigens e arrependimentos. Ninguém está livre dos erros e do espírito perfeccionista que se apossa de nós quando investigamos as pegadas de nossa história. Passado serve para nos dar orgulho e prover lições. Nada além disso. 
               Estabelecer um fetiche pelo que já foi nos faria procurar de forma obcecada por uma forma de voltar atrás e corrigir tudo. No entanto, não há corretivo; a vida é escrita à tinta e não à grafite. Se há remorso, que isso seja o ponto de partida para não repetirmos os mesmos vícios; se algo ainda não foi feito, faça já, imediatamente; se quer ajudar alguém, não espere por um pedido ou grito de socorro; se o porvir é preocupante, desde já se prepare para ele.
                A vida é assim, não dá para rebobinar ou dar pause, não dá para sentar sobre a calçada esperando o ano virar ou a semana começar. A vida é urgência, é para já, ou melhor, para ontem.
                Sendo assim, não viva de planos, viva de realizações. Faça o que quer, pois o tempo é curto demais para ficarmos agradando pessoas que não nos significam nada. É esse o recado: pé na porta e mão na massa. Quem faz o grandioso chegou lá porque não se preocupou em agradar ninguém além de si mesmo e de sua própria vocação.
                Do contrário, passaremos o resto da vida cantarolando os versos de Heaven knows I´m miserable now e choramingando pelo tempo perdido: “...Oh, why do I give valuable time/To people who don´t care if I live or die?..” (...Oh, não sei por que gasto precioso tempo com pessoas que nem ligam se eu estou vivo ou morto...).


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O cara perfeito


           
          O cara lindo, charmoso, compreensivo, bem sucedido, desimpedido, descolado, inteligente, fiel e cúmplice não existe. Explicando melhor, não existe com todas essas virtudes ao mesmo tempo. É como aquela brincadeira de desenho animado em que aparece um buraco na parede e, quando o personagem o tampa com uma das mãos, surge outro que, bloqueado, faz aparecer mais um até que não haja como o pobre e enrolado personagem fechar todos os orifícios existentes simultaneamente.


     Homens são assim: para cada virtude uma saraivada de defeitos. Não conseguimos, por exemplo, ser impecáveis na aparência e pontuais em um mesmo encontro. Em geral, ou chegamos na hora ou deixamos algum fiapo de vaidade pelo caminho para não perder o tempo. É assim que funciona: não somos capazes de cantarolar e tocar guitarra no mesmo instante.

        Práticos como nossos ancestrais das cavernas, nos especializamos em uma coisa em detrimento de outra. Desse jeito, podemos cantar muito bem ou exibir refinada perícia nos acordes, mas, fazer com excelência as duas atividades de uma só vez, não rola. Isso faz de nós criaturas exclusivas porque não conseguimos agradar duas garotas em uma só tacada. Umas vão nos adorar e outras nos odiar (isso não faz de nós o Restart, OK?).

         Além de nossos múltiplos defeitos e de nossa deficiência com multiplicidades, homem é, em geral desatento e desligado. Basta uma “sentada” à frente de computador, videogame, TV ou cerveja que o resto do mundo deixa de existir. Simples como um estalar de dedos.

         Aliás, em comum mesmo, temos os defeitos. O resto difere muito. Por isso, o sapo desajustado de cada garota será diferente. Nunca seremos príncipes, sempre sapos. Mas, garotas, vocês ao menos poderão dizer que é o sapo de vocês e de mais ninguém.

        Se fôssemos aqueles seres perfeitos dos contos de fadas/comédias românticas, vocês acham mesmo que daríamos exclusividade? Seria tanta mulher dando mole que passaríamos o trator sem dó nem piedade, sempre sabendo que no dia seguinte haveria uma “novidade” no cardápio.

         Sermos defeituosos é a nossa humanidade, a âncora que nos puxa para o frio solo da realidade. E, já que está frio, o melhor mesmo é termos uma garota especial para nos aquecer diante dos desafios dessas tantas vidas que levamos. Afinal, se não somos perfeitos (nem nós nem vocês, garotas), temos enquanto consolo a chance de evoluirmos juntos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Homem tem de chorar


              
              O homem que disse “homem não chora” chorava escondido. Homem chora e muito. Choramos por amores não correspondidos, choramos por sentimentos doloridos e pela falta de reconhecimento alheio. As lágrimas nos vêm em arroubos de arrependimento ou de tristeza por alguém que se vai.

            O homem tem de chorar. É assim que lavamos a alma e ejetamos os resíduos das batalhas que travamos com Chronos. Acredito que o pranto é um dos raros momentos em que nossa alma se desnuda. Talvez por isso tenha incomodado tanto o autor da célebre frase. 

            A verdade é que até Deus chorou. Duvido muito que um pai não choraria vendo o filho castigado, torturado e morto por uma falange de estúpidos. Essa é a vida que nos bate, nos fustiga até sangrarmos em forma de gotas salgadas.

            Isso só me faz concluir que homem chora e deve chorar sim. Não é, claro, para descascar cebolas ou fazer um curso de teatro. Não. O choro deve ser livre e espontâneo. Deve rolar com o peso das emoções que nos pressionam. Pode ser um amor bandido ou desencontrado, uma frustração, uma perda irreparável ou até mesmo o acúmulo das pequenas decepções diárias. Não importa, o importante é que, quando os cílios se inundarem, não segure as lágrimas. Elas são como cães selvagens: quanto mais encarceradas, mais elas se rebelarão até conseguirem a fuga (e isso vai acontecer, acredite, na pior hora possível).

            Juro que essa vai ser uma das lições que passarei para meus filhos (que ainda vão vir) e sobrinhos: chore toda vez que a carga de sentimentos não couber no coração. A catarse é um dos segredos das pessoas felizes, um equilíbrio que nos protege de nossos próprios fantasmas.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O homem além da curva


Ele nasceu em um mundo redondo, da barriga encurvada de uma mãe zelosa. Foi amamentado pelos seios espiralados de um amor eternal. Cresceu vendo que a vida é cíclica, retornando ao começo para uma nova tentativa. Ele entendeu que a dialética não é papo furado de livros sobre filosofia. Ele se encantava com as praias cariocas, com os corpos sensuais das garotas de biquíni e com as ondas girando em direção à areia. Ele estudou e fez amigos. Percebeu que as relações humanas não caminham em linhas, mas em curvas e desvios complexos e ricos. Ele enfrentou o status quo porque não aceitou que ideias devam ser impostas por tanques e armas como um horizonte plano que desaba sobre nossas cabeças. Ele viajou, conheceu o mundo e percebeu que não existe fim de linha, mas apenas o reinício de uma volta. Ele transpôs as belezas sinuosas para sua arte, transformou um ofício de funcionalidade em uma ode à criação e à produção. De fato, ele fez algo novo, inédito, revolucionário. Viveu para colher os frutos de seu engenho, inspirou uma geração de sonhadores e profetas. Desafiou a vida e driblou por muitas vezes o esquife. E tinha razão para tal. Sempre era possível aprender e assimilar algo engrandecedor com essa mente extraordinária. Incrivelmente, seu corpo envelhecia, mas a maestria de sua psique se renovava infinitamente. Até a virgindade de um guardanapo se via ameaçada quando caía nas mãos desse gênio indomável. Pronto, jaz um pedaço de papel para o nascimento de mais um projeto mágico. Até na despedida, tudo é diferente. É difícil chorar porque ele vai com o dever de casa rabiscado, assinado e aprovado. Na verdade, a hora é de reverência, é de nos curvarmos em respeito e admiração a quem reinventou a vida, entortou a morte e, agora, se prepara para um novo trabalho em um lugar que realmente há de merecer toda a argúcia de seus planos e traços. 


Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein
Oscar Niemeyer

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A morte de uma geração


            Os tempos, os novos e os novíssimos, acabam de decretar a morte de uma geração. Não, não estou dizendo que o mundo vai acabar no dia 21/12/12 ou que haverá um terremoto ou tsunami que vai trucidar a juventude nos próximos meses.

            Estou dizendo, na verdade, que uma geração muito promissora já está destinada ao esquecimento e à frustração. Falo, evidentemente, da geração atual de jovens e dos adultos economicamente ativos. Essa parcela da população sofre e continuará a sofrer com a falta de plenos empregos e de espaços/incentivos para desenvolver seu potencial humano.
            
           É um problema que a sociedade atual, individualista e competitiva, não quis encarar. Nossos jovens estudam, se formam e continuam se preparando para o quê? Para nada, digo sem nenhuma sombra de medo de estar errado. Não há empregos à altura e os que existem são preenchidos de uma maneira misteriosa, em grande parte avessa à mensagem que se vendeu por anos, segundo a qual o mercado estaria em busca dos melhores.
            
       Outra verdade amarga: o mercado não está e nunca esteve atrás dos melhores. As empresas, cada uma de acordo com seus rebaixados padrões éticos e morais, estão à cata de quem melhor se encaixa para fazer o “serviço sujo” pelo menor preço. As empresas não querem qualidade, mas quantidade.
            
            Isso explica o absolutismo dos números, dos gráficos e das estatísticas sobre uma análise racional e reflexiva a respeito da realidade. Gerentes, dirigentes e supervisores se prendem à objetividade para não ter o trabalho de pensar. Optam pelo boçal simplismo que lhes assegura o contracheque.
            
           Pior ainda são os empresários e proprietários. Arrogam-se uma origem monárquica, não aceitando qualquer tratamento em contrário. São, de fato, bobos da corte na função de pequenos déspotas. Adulados de frente, viram motivo de piada e chacota pelas costas. É assim o mundo empresarial: uma fogueira de vaidades com nuances de comédia pastelão.
            
           Pobre dessa geração que tem de passar pelo crivo desses tais “líderes” para ter o “direito” de trabalhar. Esse fator, evidentemente, tornou confusa e desesperançosa uma promissora legião de jovens. Arrisco-me a dizer que essa é a mais criativa e ativa renovação que a sociedade já produziu. O potencial dessa rapaziada é algo fora de série. Isso pode ser atestado na independência de blogs, sites, comunidades, revistas, jornais e grupos artísticos. É muita gente boa que não encontra espaço para desenvolver o que sabe fazer de melhor.
            
            Eu disse lá em cima: o melhor não interessa. Logo, nossos talentos se obrigam a largar o que fazem com maestria para fazer algo enfadonho que paga um subsalário. A longo prazo, esse processo adoece e enfraquece as raízes e as bases de nossas crenças e valores.
            
             Inconscientemente, passaremos esse ranço de mágoa e decepção para nossos sucessores; eles nascerão deprimidos, tendo de carregar o fardo de buscar uma felicidade que deveria ser instintiva e inata.
            
         Eu deveria reconsiderar o que disse no primeiro parágrafo: pode ser mesmo que o mundo acabe em 21/12/12. Pelo menos para uma geração de jovens que acredita em um planeta melhor, mais justo e que vive como “se não houvesse amanhã”.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Direito à ingenuidade



Sofro por ser idealista. Sofro por acreditar mil vezes na mesma mentira, por dar sucessivas chances a quem não faz por merecê-las. Sofro por acreditar na beleza que só os olhos veem. Sofro por ser incorrigível, um romântico incorrigível. Sofro por que tenho a crença de que há bonanças e benesses para além das tempestades e trovoadas.

Sofro por querer alguém especial, indivisível. Sofro por chorar as lágrimas que nunca existiram. Sofro porque não quero dar força à amargura e à frustração.
A cada ilusão perdida, sonho com uma nova, a cada ciclo interrompido, sonho com um recomeço ainda melhor.

Minhas doses cavalares de otimismo e de esperança são fonte de alienação. Fazer o quê? Não levo fé em que ser feliz seja sinônimo de ignorância, mas nem sempre devemos dar olhos e ouvidos a tudo que circula. Nem sempre devemos transformar um fato em fenômeno e fenômeno em apocalipse.

No fundo, só quero que o destino aconteça. Quero apenas que as coisas sigam seu rumo natural, que os rostos sejam talhados pelo tempo, que a vida seja esse mosaico de partos e partidas que tanto nos fascina e ilumina.
Quero sofrer talvez por acreditar no que nem mesmo é crível. Quero olhar nuvens e montanhas e enxergar existência, quero dar significado a palavras ocas e opacas, quero assistir ao final torcendo pelo início.

Seja como for, seja com que for, seja para onde for; não importa. Quero apenas preservar meu direito à ingenuidade, quero apenas preservar essa vã filosofia que dá crédito a mistérios e ao falível “no fim tudo vai dar certo”. Se não der, quero apenas acreditar que ainda não acabou e assentar minhas veleidades sobre a rocha dos desejos enquanto espero o milagre.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Choro com Baleiro


          Ela não achou meu cabelo engraçado, proibiu-se pra mim, my way. Disse que podia, mas não queria ficar. Não levou a sério palavra alguma que eu falei. Eu fiz tudo o que podia fazer, mas roubaram essa mulher de mim. Poderia te ligar a qualquer hora, mas não sei seu número e muito menos seu nome.
         Sei que não sou quem vai fazer você feliz, sei que não sou eu quem vai fazer você feliz. Merda!
         Eu me flagrei tentando te esquecer. Nada havia para te dizer, jamais saberei o que é uma noite especialmente boa. Não há nada mais a gente possa perder.
         Sei que não sou quem vai fazer você feliz, sei que não sou quem vai fazer você feliz. Merda!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Fala final


            
             Essa é minha fala final, então, serei direto. Não sou impulsivo e grudento como ficou parecendo nos últimos dias. Não sou de me entregar e muito menos de me apegar. Sempre fui independente, seguro, confiante.
            Acontece que você mexeu comigo de uma maneira diferente, inexplicável. Quando nos conhecemos, senti um frio na espinha, um suor febril, os mesmos sintomas que antecederam as grandes vitórias da minha vida.
            Bom, isso tudo valeu para eu me conhecer melhor, para eu saber como meu coração ainda é vulnerável e humano. Infelizmente, terminei pedindo atenção da sua parte e uma boa investida não pede nada, ela conquista naturalmente.
            Essa é a lição que fica, mulheres como você, desafiadoras, daquelas que não tiramos olho, são as que nos fazem trocar os pés pelas mãos, a sensatez pela emoção. Foi isso que fiz. Deixei de ser quem eu sou para ser quem eu já fui. Fórmula fracassada e que já vi não funcionar na prática.
            Amanhã vai ser outro dia e estarei pronto para seguir em frente. Não vejo um ponto final, mas apenas um novo parágrafo. Uma nova oportunidade para ser quem eu, de fato, sou.


Bola na trave

"Bola na trave não altera o placar
Bola na área sem ninguém pra cabecear
Bola na rede pra fazer o gol
Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?..."

Samuel Rosa e Nando Reis



A última noite foi como a última jogada. Eu olhei fixamente a bola e chutei a gol. Provocativa, ela passou a milímetros da luva defensora, beijou uma das traves e rolou macia sobre a linha. Depois, tocou a outra trave e rodopiou moleca, passando apenas uma porção de si pelo limite da meta adversária. Não demorou para que uma chuteira furiosa a arrancasse dali a pontapés eivados de um descarrego colérico. Não havia mais tempo para nada. O juiz apitou, o jogo acabou, a música cessou e você foi embora carregando os saltos nas pontas dos dedos da mão esquerda, sem me beijar ou dizer adeus.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Perigoso precedente



Deglutindo taças de sangue, foi assim que boa parte da “opinião pública” e da “imprensa” comemorou a condenação do núcleo do PT (José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares) por corrupção ativa no Supremo Tribunal Federal (STF). Não vou me arriscar em defesa do trio, porque acho que ele tem sim culpa no cartório.
A questão primordial aqui foi o leque de provas, o tal “conjunto probatório”, que serviu de base para a condenação. No caso do ex-tesoureiro petista, Delúbio, ficou muito evidente sua participação ativa em todo o esquema, recebendo e repassando valores, disso não há dúvida quando se avalia o processo como um todo.
Todavia, o ex-presidente do partido, José Genoino, não se encontra cercado de tantas provas. Há, claro, assinaturas protocolares de documentos, os empréstimos em nome do partido, etc. São linhas comprometedoras, mas ainda não cabais, de fato, para uma condenação.
O caso que eu considero mais preocupante pelo precedente que se abre é o do ex-ministro do Governo Lula, José Dirceu. Homem forte daquele governo e do partido, Dirceu, claro, arquitetou uma séries de reuniões em prol da sustentação da base política da gestão de Lula. Dirceu foi um dos mentores de um extenso processo multipartidário para garantir vitórias no Congresso. Compor com legendas como o extinto PL, o PTB, entre outras, não é exclusividade do governo Lula. Em país de constituição parlamentarista e regime presidencialista, esse vício se torna inevitável para qualquer um que venha a ocupar a cadeira do poder Executivo.
 Dessa forma, pelo que se colocou como “provas” de participação de José Dirceu no esquema, não seria possível condená-lo, pois elas não apontam diretamente para ele. São peças que indicam apenas participação política, mas não corruptiva. José Dirceu, a verdade não pode ser outra, já estava condenado antes mesmo de o processo ser avaliado pelo STF. Tal qual sua condenação pela Câmara dos Deputados, a punição pelo Supremo se deu pela via política e não à luz dos fatos. Sendo mais técnico, José Dirceu foi responsabilizado pela interpretação cruzada de todos os depoimentos e documentos levantados.
De fato, puniu-se o culpado no caso do ex-ministro. Porém, abre-se uma perigosa possibilidade nos tribunais. Possibilidade essa que pode colocar inocentes atrás das grades, pois não é preciso mais comprovar a autoria dos fatos e sim produzir uma elucubração capaz de ligar o réu ao delito. Até onde sei, a lei não foi refeita nesse sentido, ou seja, o código penal brasileiro não abriu mão de provas para provocar uma condenação.
Não é exagero, dessa forma, dizer que o STF, mais uma vez, voltou a “legislar”, a extrapolar seu raio de ação. Também considero que o tribunal maior brasileiro “legislou”, quando aprovou a adoção o sistema de cotas nas universidades públicas. Essa opinião não é minha e sim de Reinaldo Azevedo, colunista da revista “Veja” com quem confronto abertamente no campo das ideias. Azevedo, evidentemente, não usou o julgamento do “mensalão” para apontar essa “função legislativa” do STF. Ele lançou essa visão de fatos quando a mesma instância autorizou o aborto de fetos anencéfalos em abril desse ano.
Assim, pode-se perceber que o STF avança e atropela outros pilares do Governo (lembrando que nosso Governo é formado pelo tripé Executivo, Legislativo e Judiciário), o que pode causar, no futuro, profundos constrangimentos institucionais. Além disso, é preciso respeitar os fatos e a eles se ater nas combinações condenatórias, do contrário, estaremos em uma perigosa marcha que pode enjaular inocentes pelo simples exercício de seus direitos políticos e de sua liberdade de expressão.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Baú dos Mortos

Hoje é dia de abrir meu baú, de redescobrir coisas escritas anos atrás. Começo com um pedaço, isso mesmo, um pedaço de um roteiro que comecei a produzir com meu irmão Davi. É uma série sobre mortos-vivos. Nenhuma novidade, né? Bom, nesse caso a novidade é que começamos a trabalhar nisso muito antes de Walking Dead existir. Bebíamos da água de Resident Evil, claro que falo do game e não das porcarias de filmes que a franquia gerou. Imaginamos um cenário paradisíaco, mas cheio de mistérios que iriam revelar  sinistra aparição dos canibais moribundos. O nome é Mortos porque tínhamos a pretensão de responder a pergunta que sempre surge em um enredo de zumbis: esses caras estão mortos ou vivos? Mortos, muito mortos, respondemos com esse título bem presunçoso. Sei que muita coisa ainda deveria ser aprimorada,  enriquecida, mas valeu a pena o exercício. Eis, então, as primeiras páginas de Mortos. Tenho certeza de que ninguém ficará com medinho (buuuuuu):


MORTOS (DEAD)

Autores/roteiristas: Davi Macário e Daniel Macário

Sinopse: Cinco amigos vão acampar em Chácara (pequena cidade do interior de Minas) e, chegando lá, descobrem que moradores do local estão sendo contaminados por um estranho vírus que os transforma em mortos-vivos. Desesperados, resta-lhes agora sobreviver a tudo isso e tentar reencontrar o caminho de casa antes que seja tarde demais.

Personagens (1ª Temporada):
Edu: Loiro, olhos castanhos, não muito alto e ligeiramente atlético. Tem 25 anos, é solteiro e possui fama de mulherengo. Gosta muito de acampamentos e tem experiência em caça e pesca. Seu pai, um proeminente fazendeiro, o obrigava a executar animais durante caçadas pela zona rural e isso fez com que ele guardasse profundos conflitos acerca da figura paterna É universitário e está no terceiro período do curso de administração. Na escola, era aficionado por biologia e química, isso permitirá a ele entender mais rápido do que os demais como funciona o mecanismo de contágio e como o vírus afeta o organismo das pessoas infectadas. Em termos religiosos, é católico não praticamente. Carrega em si profundos valores éticos e afetivos, o que lhe trará grandes choques psicológicos quando tiver que executar pessoas que conhece ou crianças e mulheres. Por outro lado, a luta pela sobrevivência fará aflorar em Edu uma visão estratégica aguda, permitindo-lhe encontrar os atalhos para escapar dos perigos que os cercarão permanentemente.

Cabeça: Negro, forte, tem por volta de 1,80 m. Usa cabelo raspado e carrega inúmeros anéis nos dedos, além uma corrente de ouro no pescoço. É fã de rap e hip-hop, saindo-se muito bem quando dança embalado por esses ritmos. É considerado o maconheiro da turma, sempre carregando consigo trouxinhas e papelotes do alucinógeno. Cresceu nos subúrbios, tendo já se envolvido com o tráfico de drogas e com gangues. Graças a um esforço hercúleo de sua mãe, conseguiu sair do crime e voltar à escola, tendo terminado o Ensino Médio. Essa vida bandida lhe trouxe experiência com o manuseio de armas de fogo e com a luta pela sobrevivência, moldando-o para enfrentar os mortos-vivos com desenvoltura e frieza sobre-humanas. Nutre o sonho de entrar para as Forças Armadas, cumprindo promessa feita no leito de morte do pai que queria ver o filho servindo o país e sendo respeitado por todos. Não tem religião, mas acredita em Deus. Por ser jovem (tem 22 anos), coleciona namoradas e não tem relacionamento sério.

Ricardo: É alto (1,85 m), tem cabelos negros e pele branca. Apresenta algumas feições árabes suaves, pois descende de libaneses. Um pouco mais velho que os demais amigos (tem 28 anos), é ponderado e sempre se preocupa com o bem-estar do grupo. Tem uma namorada de muitos anos e um diploma de cineasta. Não tem religião definida, mas é a favor da eutanásia e do aborto. É ainda fã de Michael Moore e odeia Hollywood. Em momentos de adversidade, mostra-se um beberrão contumaz. Seu passado como escoteiro se torna útil ao grupo quando a epidemia viral estoura em Chácara.

Guedes: É magro, tem estatura mediana (1,75 m) e cultiva uma vasta cabeleira castanha clara. Possui uma tatuagem no braço esquerdo e os dentes levemente amarelados pelo fumo excessivo. Com o Ensino Médio concluído, foi trabalhar em uma concessionária de automóveis. Muito persuasivo e carreirista, subiu na empresa e se tornou gerente aos 26 anos. Mantém há tempos o perigoso prazer de dirigir sempre em alta velocidade. Esta habilidade lhe garantirá importantes pontos quando a contaminação afetar a população local. É ateu e de um caráter excessivamente individualista e anti-ético. No campo da ação, é medroso e tem dificuldade em usar armas.

Serginho: É o boa-praça do grupo. Moreno, alto e atlético. Tem 27 anos. Sabe nadar bem e tem ótimo senso de direção. Com facilidade, consegue a amizade de todos no acampamento. Conhece como poucos o interior de Chácara. Trabalha em uma agência de turismo e não tem namorada. Embora não tenha religião definida, gosta muito das filosofias orientais.

Burton: É um obeso caminhoneiro de 29 anos. Traja usualmente um boné vermelho, calça jeans surrada e uma camiseta branca amarrotada. A barba por fazer e fisionomia cansada indicam que já estava dirigindo a longo tempo, antes de chegar a Chácara. Integra-se ao grupo já no perímetro urbano, quando todos estão tentando fugir dos infectados. Carrega sempre uma arma na cintura para se defender de assaltantes na estrada. Além da arma, porta também uma pequena garrafa com bebida destilada e um crucifixo. Por enfrentar muitos perigosos em seu cotidiano, não se surpreende tanto com a situação de adversidade que toma conta da cidade. É corajoso e estabelece relação de grande afinidade com Edu e Cabeça.

1º Episódio:
SEQÜÊNCIA 1 – SALA DE AULA – INTERNA - DIA
É um ambiente amplo e arejado, com carteiras confortáveis e bem distribuídas pelo espaço. A sala é equipada com diversos recursos didáticos tais como projetores multimídia, lousa branca digital, TV, DVD e um potente microcomputador. O professor, vestido com calça e camisa sociais, comenta o resultado de um teste aplicado anteriormente. Enquanto isso Edu conversa em voz baixa com Camila, uma bonita morena de 21 anos.
EDU (EM VOZ BAIXA E INCLINANDO O CORPO NA DIREÇÃO DE CAMILA): Camilinha, o que você acha da gente sair mais tarde?
CAMILA (EM VOZ BAIXA E INCLINADA PARA EDU): Não sei. Eu não fui bem nessa prova. Não tenho motivos pra comemorar.
EDU: Então a gente podia afogar as mágoas. (TOM) Eu também afundei nessa prova.
CAMILA: Ah, não sei se tô com cabeça pra isso não. Tô muito chateada, sabe? Me sentindo uma burra.
EDU: Camila, a vida não é só aula, prova, faculdade. Tudo bem, as coisas podem não ter dado certo, mas não é o fim da linha. Existem coisas mais importantes. Você sabe disso.
CAMILA: É, você tem razão. Mas eu queria tanto ter ido bem nessa prova.
EDU: Não devia se preocupar tanto com isso. Amanhã, sei lá, o mundo pode acabar, as calotas polares podem derreter, um meteoro pode cair na Terra. E aí, todo esse nosso universo estudantil deixa de ter significado. Entende? Temos que viver intensamente. Amar, lutar, vencer, perder, tentar de novo. Enfim, seguir em frente e deixar o que ficou pra trás.
CAMILA: Você tá dizendo tudo isso só pra sair comigo?
EDU (RINDO): Também. Mas eu realmente acredito nisso tudo. Pra mim, o melhor da vida é sempre o hoje, o agora.
CAMILA (SORRI): Tudo bem, Edu. Pode ser que a gente saia hoje.
 (COCHICHANDO PARA SI MESMO): Obrigado, Senhor.

SEQÜÊNCIA 2 – CORREDOR DA FACULDADE – INTERNA – DIA
Trata-se de um prédio moderno e bonito. As paredes são de um azul muito claro e em alguns pontos existem murais com diversas informações para os acadêmicos. Algumas seqüências de assentos estão espalhadas ao longo do corredor. Em uma delas, Edu está sentado conversando com Fred, o qual se encontra em pé, apoiado na parede com uma das mãos. Fred é um estudante nerd: de óculos, calça social e camisa xadrez. A câmera aborda a cena por cima, mostrando o vai-e-vem de pessoas, depois se aproxima dos personagens até enquadrá-los em um plano médio.
FRED (RINDO): Pô, Edu. Vai sair com a Camila? Tá podendo, hein, cara?
EDU: É, cara. Acho que vai rolar mesmo. Eu tô na cola dessa menina faz tempo.
FRED: E a provas? Mandou bem? Eu consegui passar, graças a Deus.
EDU: Fiquei agarrado em uma disciplina. Fazer o que, né? Agora é estudar dobrado no próximo período.
FRED: E quanto às férias? Já planejou alguma coisa?
EDU: Eu devo ir amanhã pra Chácara. Vou tirar o fim-de-semana pra descansar a cabeça. Na volta, eu vejo se rola uma viagem mais longa. E você, cara? Aposto que já preparou tudo.
FRED: Ah, você me conhece. Eu vou pra uma feira de informática e jogos eletrônicos que vai rolar no Rio. Depois, fico por lá, curtindo a praia, a mulherada.
EDU: Maravilha, cara. (OLHA PARA O RELÓGIO) Porra. Já tô no atraso. Deixa eu ir que tenho muita coisa pra resolver (CUMPRIMENTA FRED E SAI DE CENA).

SEQÜÊNCIA 3 – CASA DO EDU – INTERNA- DIA
A cena de desenvolve na sala da casa de Edu. No espaço, existe uma estante com objetos de decoração e, no centro dela, está uma enorme TV conectada a um DVD. Há também um luxuoso sofá de frente para a estante. Em um dos cantos, há uma mesinha com jornais do dia e algumas revistas. 
EDU (ENTRA EM CENA. APARENTA ESTAR CANSADO. O TELEFONE CELULAR TOCA E EDU ATENDE, APÓS UM BREVE SUSPIRO): Alô?
VOZ DE SERGINHO AO TELEFONE: Fala, Eduzão. E aí, rapá? Beleza?
EDU: Tudo tranqüilo, cara. O que cê manda? 
SERGINHO: Porra, cara. Tô ligando pra saber se a gente vai mesmo pra Chácara. Lembra que a gente combinou?
EDU: Lembro sim. (TOM) Merda, cara. Não consegui deixar tudo no esquema. Tive uma semana de provas muito foda lá na faculdade. Aí já viu, né?
SERGINHO: Pois é, cara. Mas o lance tá de pé ainda? É como eu falei, vai dar mulher pra caramba. A gente não pode deixar de ir.
EDU: Lógico, cara. Tá confirmado. Já vou começar a arrumar as minhas coisas pra gente ir amanhã cedo.
SERGINHO: E o resto da galera? O Ricardo, o Cabeça, aquele mala sem alça do Guedes. Você vai chamar?
EDU: Claro, eu falo com a rapaziada. Pode deixar que amanhã tá todo mundo lá.
SERGINHO: Beleza. Então a gente se encontra lá na área de camping, perto da cachoeira. Você lembra onde fica, né?
EDU: Lembro, claro. Amanhã, com certeza estaremos lá.
SERGINHO: Fechado, então. Grande abraço, velho.
EDU: Abraço, cara (DESLIGA O CELULAR).
Após conversar com Serginho, Edu se joga no sofá e fica deitado por algum tempo pensando. Logo, fica com sono e adormece.

SEQÜÊNCIA 4 – MATA DO SONHO DE EDU – EXTERNA – DIA
Trata-se de uma mata densa, com pouca distância entre árvores, galhos e arbustos. A câmera vem atravessando a mata até enquadrar frontalmente Edu e o seu pai, Hélio. Edu, em seu princípio de adolescência, e Hélio estão na mata caçando. Ambos estão armados com espingardas. A dupla está de botas, calças jeans e camisas escuras. Hélio traja ainda um colete de caça com cartucheira por cima da camisa.
PAI: Edu, assim que ver alguma coisa, atire. Como eu te mostrei.
EDU: Tá bom, papai.
Alguns instantes depois, alguma coisa passa correndo entre os arbustos e árvores. A câmera adota o ponto de vista da criatura. Edu e Hélio correm atrás dela. A caçada dura algum tempo, em uma cena com suspense e adrenalina. Por fim, Edu e o Pai encurralam a coisa. Trata-se de um cervo. Ele está assustado. Close nos olhos apavorados do animal alternados com close nos olhos tensos e indecisos de Edu.
PAI (AOS BERROS): Vamos, Edu. Atire, atire. Como eu te ensinei.
EDU (MUITO TENSO. SEGURA A ARMA APONTADA PARA O ANIMAL, MAS NÃO ATIRA.).
A cena segue tensa. Novo close no olhar de Edu. Sobe sonoplastia de batimentos cardíacos que segue até o fim. Sobe som também dos gritos do Hélio. As duas linhas de som seguem simultâneas. A ação agora passa a transcorrer em slow motion. De repente, o toque do celular de Edu interrompe a cena abruptamente.

SEQÜÊNCIA 5 – APARTAMENTO DE EDU – INTERNA - NOITE
Edu acorda assustado com o toque do aparelho. Ao pegá-lo, se atrapalha, quase permitindo sua queda. Depois, atende ainda muito agitado.
EDU: Alô, Camila?
VOZ DE CAMILA: Oi, Edu? E aí? A gente vai ou não sair?
EDU (SORRI DE FORMA SACANA): Lembrou do que eu disse sobre viver intensamente, né?

SEQÜÊNCIA 6 – BARZINHO – INTERNA – NOITE
Edu e Camila estão sentados com tulipas de chope em uma das concorridas mesas do bar. Trata-se de um ambiente moderno e luxuoso. A iluminação não é muito forte, de um tom alaranjado, causando a sensação de privacidade e conforto. As mesas, cadeiras, balcão e armários com bebidas são feitos de uma madeira bonita e vistosa. Há ainda enorme um telão na parte central da casa com clipes e filmes, podendo ser visto de qualquer ponto. Há muitos casais e grupos de amigos no local.

CAMILA: Quando eu liguei, você atendeu tão agitado. Atrapalhei alguma coisa?
EDU: Não. É que eu estava cochilando e então o celular tocou.
CAMILA: Sonhava com alguma coisa boa?
EDU: Não. É um sonho que eu tenho com muita freqüência. Trauma de infância. Mas podemos falar de coisas mais agradáveis (ACARICIA A MÃO DE CAMILA).
CAMILA: Parece então que seremos parceiros de dependência no próximo período.
EDU: Achei que a gente ia falar de coisas agradáveis. (APROXIMA-SE DE CAMILA) Não tem problema. Pelo menos você vai estar lá.
CAMILA: É, seu assanhado. Mas desta vez vou ter que estudar pra valer. Não posso repetir essa disciplina de novo.
EDU: Não esquenta com isso. Nós vamos estudar muito. Claro que entre uma página e outra, uns beijinhos não cairiam nada mal.
CAMILA (DÁ UM SELINHO EM EDU): É. Mas teremos pela frente muito mais páginas do que beijos.
EDU: Você me beijou? Já ganhei meu dia. (TOM) Não pode rolar mais um, não?
CAMILA (BEIJA EDU, DESSA VEZ DE LÍNGUA. UM BEIJO INTENSO QUE DURA ALGUM TEMPO).
EDU: Nó, agora fiquei sem fôlego. Pode rolar mais um?
CAMILA (BEIJA EDU NOVAMENTE. UM BEIJO AINDA MAIS VOLUPTUOSO).
EDU (FALANDO BAIXINHO, NO OUVIDO DE CAMILA): A gente podia continuar isso em outro lugar.

SEQÜÊNCIA 7 – QUARTO DE MOTEL – NOITE – INTERNA
Edu e Camila estão nus, se beijando. Os corpos estão parcialmente protegidos pela coberta. A cena é tórrida e envolve muitos beijos quentes e uma simulação suave de uma relação sexual.

SEQÜÊNCIA 8 – AMANHECER – EXTERNA - DIA
Takes com imagens do amanhecer entre os aranha-céus. Trata-se de um lindo dia de sol, com ruas movimentadas e pessoas bonitas vestidas com roupas leves.

SEQÜÊNCIA 9 – PORTARIA DO PRÉDIO DO EDU – EXTERNA – DIA
Câmera foca um carro que chega e estaciona perto do edifício. Trata-se de uma vistosa caminhonete preta. Na carroceria do automóvel estão duas mochilas, uma barraca de acampamento e os demais equipamentos. Cabeça desce do carro. Está de óculos escuros, camiseta, bermuda e tênis sem meias. Ele atravessa a rua movimentada e alcança a calçada do prédio de Edu. Passam por ele duas bonitas garotas com as quais troca olhares.
CABEÇA (ESFREGANGO AS MÃOS, EMPOLGADO): Hoje o dia promete (ASSIM QUE CHEGA À PORTARIA DO PRÉDIO, TOCA  O INTERFONE)
EDU (ATENDENDO AO INTERFONE COM A VOZ CANSADA): Fala, Negão. O que cê manda?
CABEÇA: Pára de enrolar e vamo nessa. Já tô na pilha e pronto pra ação.  
EDU: Tô descendo. Valeu.
EM ALGUNS INSTANTES, EDU APARECE NA PORTARIA DO PRÉDIO. ESTÁ VESTINDO UMA CAMISA LARANJA, BERMUDA AZUL E CHINELO DE DEDO. NA CABEÇA, LEVA ÓCULOS DE SOL. NAS COSTAS, UMA MOCHILA CARREGADA DE BUGIGANGAS. OS DOIS SE CUMPRIMENTAM.           
EDU: Qual é, Negão? Preparado pra conhecer os encantos de Chácara?
CABEÇA: Pode crer que eu estou. Mas esse lugar é legal assim como cês falam?
EDU: Porra, cara. É maravilhoso. O camping é super limpo e bem cuidado. Cada um já tem uma área reserva pra sua barraca e a galera que costuma ir é muito gente boa. De um lado, tem uma cachoeira ótima. Do outro, uma mata fechada com muito verde, ar puro, animais exóticos. De quebra, ainda tem um quiosque pra gente tomar aquele gelo.
CABEÇA: Então pra virar o paraíso só falta uma coisa.
EDU (RINDO): Não falta não, meu irmão. O lugar é cheio de mulher. Com certeza, você vai tirar o atraso lá. Pelo menos o seu, porque o meu eu tirei ontem mesmo.
CABEÇA (BATE NA MÃO DE EDU): Boa, moleque. E foi com quem?
EDU: Com a Camilinha, uma gatinha lá da faculdade. Você tem que ver o que ela faz entre quatro paredes.
CABEÇA: Porra, irmão. Você se deu bem nessa. Mas, mudando um pouco de assunto, e o resto do pessoal? Eles não vão com a gente?
EDU: Não, cara. O Serginho já está lá montando a barraca dele e armando a churrasqueira...
CABEÇA: Churrasco? Pô, isso tá ficando cada vez melhor.
EDU: Pois é, cara. Já o Guedes vai direto do trabalho pra lá. O Ricardo vai pegar uma carona com ele.
CABEÇA: Bom, se tudo já tá resolvido, vamo nessa.
EDU: Tudo resolvido mesmo, espertão? Então vamos conferir. Você trouxe bolsa térmica?
CABEÇA: Sim.
EDU: Isolante térmico?
CABEÇA: Positivo.
EDU: Lanterna e fogareiro?
CABEÇA (IMPACIENTE): Sim. Porra, cara. Eu trouxe tudo. Conferi tudo lá em casa, item por item.
EDU: Então porque você tá me olhando com essa cara de bunda? Demorô. Vambora (JOGA A MOCHILA NA CARROCERIA E ENTRA NO CARRO PELA PORTA DO CARONA).
CABEÇA (SOBE NO CARRO. DEPOIS, LIGA O AUTOMÓVEL E ARRANCA CANTANDO PNEU. NA SEQÜÊNCIA, ACIONA O SOM DO CARRO. SOBE UM HIP-HOP DO MOMENTO. ENTRA CLIPE DE IMAGEM DOS DOIS DANÇANDO E CANTANDO AO LONGO DA VIAGEM).

SEQÜÊNCIA 10 – VIAGEM DE CARRO – EXTERNA – DIA
Takes com imagens áreas e panorâmicas do carro de Cabeça indo para Chácara. Destaque para a paisagem que vai passando do urbano para o rural.

SEQÜÊNCIA 11 – CENTRO DE CHÁCARA – EXTERNA – DIA
Um vectra cinza para no centro de Chácara. O cenário é de uma cidade pouco movimentada, com algumas pessoas indo e vindo. As construções são todas simples, excetuando-se uma área com algumas casas mais nobres e os prédios públicos. Na praça, alguns brinquedos com crianças se divertindo e mães sentadas observando. Guedes e Ricardo saem do carro. Guedes está fumando um cigarro. Os moradores os olham desconfiados.
GUEDES (JOGA O CIGARRO NO CHÃO E PISA EM CIMA): Nossa, que fim de mundo é isso aqui.
RICARDO (APROXIMA-SE DE UM SENHOR DE MEIA-IDADE QUE ESTÁ NA PRAÇA): Com licença, o senhor poderia me dizer qual é o caminho para chegar à cachoeira?
SENHOR (ASSUSTADO, SE AFASTA DE RICARDO, EVITANDO-O).
GUEDES (APROXIMA-SE DE UMA DAS MÃES, MAS A MULHER RECOLHE A CRIANÇA NOS BRAÇOS E ESQUIVA-SE DE GUEDES).
RICARDO (TENTA CONTATO COM OUTRO HOMEM QUE TAMBÉM O EVITA)
DEMAIS MORADORES (AFASTAM-SE DOS FORASTEIROS, MOSTRANDO QUE NÃO QUEREM CONTATO).
GUEDES: Pô, cara. Hoje tá difícil. Só tem bicho do mato aqui.
RICARDO: Bom, em uma cidade como essa, só uma pessoa ficaria feliz de nos ver.
GUEDES: Quem?
RICARDO: O dono do boteco.

SEQÜÊNCIA 12 – BOTECO – INTERNA – DIA
É um boteco rústico e simples. Alguns poucos homens simples e mal-vestidos papeiam e tomam doses de cachaça. No balcão, Burton, um homem de boné vermelho, calça jeans surrada e camiseta branca toma um copo de cerveja. Ricardo e Guedes se dirigem ao dono do estabelecimento. Trata-se de um homem magro, com feições orientais e de meia-idade.
RICARDO: Por favor, amigo. O senhor poderia nos dar uma informação?
DONO DO BAR: Informação e banheiro é só pra cliente.
BURTON: Qual é, Wang? Até informação você tá cobrando agora?
RICARDO (FALANDO COM O HOMEM DE BONÉ): Pode deixar. Vamos fazer o jogo dele. (BATE A MÃO NO BALCÃO) Me vê aí uma dose da sua melhor cachaça.
DONO DO BAR (SERVE RICARDO)
RICARDO (VIRA A BEBIDA EM UM ÚNICO GOLE E DEPOIS JOGA UMA NOTA DE DOIS REAIS NO BALCÃO) Pronto, agora desembucha. Pra que lado fica a cachoeira?
DONO DO BAR (SAINDO DE TRÁS DO BALCÃO): Vêm comigo. (CONDUZ RICARDO E GUEDES ATÉ A PORTA DO BOTECO). Cachoeira? (ACENA COM A CABEÇA EM DIREÇÃO AO CAMINHO) É por ali. (CÂMERA MOSTRA O CAMINHO. TRATA-SE DE UMA ESTRADA EMPOEIRADA, SOTURNA E MAL SINALIZADA) Têm certeza de que querem mesmo ir? Dizem que algumas pessoas sumiram lá nos últimos dias.
GUEDES (ASSUSTADO, OLHA PARA RICARDO): Porra, cara. Que coisa estranha.
RICARDO (RINDO IRONICAMENTE): Qual é, Guedes. Não vê que esse cara quer te assustar? (OLHA PARA O DONO DO BAR): Isso nem deve ser verdade e, se for, é só algum retardado perdido no meio do mato.
DONO DO BAR: Tudo bem. Vocês decidem. De todo jeito, boa sorte pra vocês.
GUEDES (APONTANDO PARA UMA DAS CASAS NOBRES DA CIDADE. TRATA-SE NA VERDADE DE UMA MANSÃO): Por falar em sorte, de quem é essa casa? Gostaria de morar numa dessas.
DONO DO BAR: É da família Rezende. São muito ricos, mas infelizes.
GUEDES: Fala sério, como é que alguém pode ser rico e infeliz? Que tristeza pode resistir a uma casa dessas, a um carrão igual aquele ali na garagem, a uma conta no banco cheia de dólares?
DONO DO BAR: Um filho doente. Chama-se Otávio. Ele tem uma doença degenerativa.  Dizem que o rapaz fica trancado em um dos quartos da casa, mas tem algo estranho. Ninguém é visto há dias e de noite alguns vizinhos comentam que ouvem gritos.
RICARDO (DÁ UMA RISADA DE DEBOCHE): Gente sumida, gritos de noite. Você sempre conta essa mesma historinha pra todos, né?
DONO DO BAR: Vocês pagaram por estas informações. Podem acreditar nelas ou não.
RICARDO (BALANÇA A CABEÇA NEGATIVAMENTE PARA O DONO DO BAR).
RICARDO E GUEDES (SAEM DO BOTECO E ENTRAM NO CARRO QUE ESTÁ PARADO NA PORTA. DEPOIS ARRANCAM RUMO À ESTRADA SOMBRIA).

SEQÜÊNCIA 13 – ESTRADA PARA A CACHOEIRA – EXTERNA – DIA
O carro de Cabeça e Edu está quase chegando. Ao observarem um chalé no alto de uma elevação, eles param para checar:
CABEÇA (SAI DO CARRO): Nossa, que merda é essa? Um chalé assim no meio do nada?
EDU (JÁ FORA DO CARRO): Pois é, cara. Esse chalé é muito interessante. Dizem que é abandonado, mas nunca ninguém teve coragem de ir lá pra conferir.
CABEÇA (RINDO) Será que é mal assombrado?
EDU: Acho que a gente tá bem grandinho pra acreditar em assombração, não é mesmo?
CABEÇA (RINDO) Com certeza.
Os dois retornam ao carro e dão partida rumo ao camping.

SEQÜÊNCIA 14 – CAMPING – EXTERNA – DIA
Serginho já está no camping. Sem camisa e de bermuda, ele está preparando um churrasco. Atrás dele, está uma moderna barraca de acampamento devidamente montada. De repente, chega uma caminhonete, dela descem Edu e Cabeça. Surpreso, Serginho vai recebê-los.
SERGINHO (FALANDO PARA CABEÇA): Porra, Negão. Que máquina, hein? Tá mesmo bem de vida.
CABEÇA (RINDO): Quem me dera. É do meu padrasto.
EDU: Tô sentindo cheirinho de churrasco. É impressão minha ou tô errado?
SERGINHO: Tá errado, não. Eu aproveitei que vocês ainda não tinham chegado e comecei a fazer um churrasquinho daqueles. Tá uma delícia, provem (SERGINHO TIRA UM ESPETO DA CHURRASQUEIRA COM VÁRIOS PEDAÇOS DE UMA SUCULENTA LINGÜIÇA).
CABEÇA E EDU (PEGAM E DELICIAM-SE COM A CARNE DE PRIMEIRA FEITA POR SERGINHO)
EDU: Essa linguicinha tá demais. É por isso que eu não deixava você faltar nenhum daqueles churrasquinhos que a gente fazia lá em casa, lembra?
SERGINHO: Lembro. Eram ótimos tempos, velho. A gente se divertia muito.
EDU (RINDO): E a mulherada? A gente não era fácil. Não sobrava uma pra contar história.
SERGINHO (GARGALHANDO) Por falar nisso, você lembra daquela vez que a gente veio aqui? Você ficou com aquela menina ruiva dentro da minha barraca. Eu querendo dormir e você lá pegando a menina... Depois deixou a barraca toda emporcalhada e eu acabei dormindo no sereno.
EDU: Porra, cara. Nem me lembra isso. Aquele dia foi do caralho.
CABEÇA (ALHEIO À CONVERSA DE EDU E SERGINHO, CABEÇA OBSERVA O LOCAL EM TODOS OS SEUS DETALHES. CONTEMPLA A BELEZA DA CACHOEIRA E A OPULÊNCIA DA MATA FECHADA CONTÍGUA. QUANDO PASSA OS OLHOS PELO CAMPING, CONSTATA ALGO ERRADO. O LOCAL ESTÁ MAL CUIDADO, COM GRAMA ALTA E SUJEIRA ESPALHADA EM ALGUNS PONTOS. O QUISOQUE ESTÁ DEPREDRADO E MAL CONSERVADO. SURPRESO, ELE COMENTA COM OS COLEGAS): Galera, tem algo errado aqui. Não era pra esse lugar estar bem cuidado? Eu nunca vim aqui antes, mas o Edu disse que essa área era verde e limpa.
EDU (OLHANDO O LOCAL) É mesmo. Você tem razão, Cabeça. Das vezes que vim aqui, não era assim. O que houve?
SERGINHO: É, eu também achei estranho quando cheguei. O pessoal do quiosque disse que uns caras vieram aqui ontem e emporcalharam tudo. Mas o importante é que estamos em um lugar lindo, cheio de belezas naturais e garotas ótimas.
CABEÇA: Garotas ótimas? Onde?
SERGINHO: Calma, rapá. Elas estão naquelas barracas lá do outro lado. São três meninas e dois caras. E, deixa eu falar, esses camaradas são tudo vinagrete, sacaram? Ou seja, elas estão disponíveis, é só chegar e levar.
EDU: E como você sabe?
SERGINHO: Porra, Edu. Até parece que não me conhece. Eu já fui lá trocar uma idéia, sacar quem tá de boa.
CABEÇA (RINDO) Serginho, você não é fácil.
SERGINHO: É isso aí, velho. Quem não chora não mama.
EDU: Galera, o sol rachando e a gente ainda aqui?
CABEÇA (TIRA A CAMISA): Demorô. Essa cachoeira tá chamando a gente.
Os três correm felizes e satisfeitos na direção da queda d’água.

SEQÜÊNCIA 15 – CACHOEIRA – EXTERNA – DIA
Trata-se de uma linda queda d’água. O ambiente, limpo e refrescante, transmite uma aura renovadora. No nível do solo, as pedras que envolvem a cachoeira formam uma pequena piscina, represando a água e permitindo aos visitantes pequenos mergulhos. Edu, Cabeça e Serginho estão se banhando e, alternadamente, brincando de “dar caldo”.
CABEÇA: Que delícia, brother.
EDU: Nossa. Isso aqui só não é melhor do que mulher.
SERGINHO (RINDO): Edu, tenho lá minhas dúvidas. Cachoeira não fica com dor de cabeça e nem estoura o cartão de crédito.
Os três riem da piada.
EDU (OLHANDO A ESTRADA): Ih, olha lá quem tá vindo.
Nesse instante chegam Guedes e Ricardo. Os dois estão sorridentes e cumprimentam os colegas.
GUEDES (CUMPRIMENTADO OS COLEGAS): Fala, rapaziada. Como estão as coisas?
RICARDO (TAMBÉM CUMPRIMENTANDO): Oh, gente boa. Como vocês tão?
EDU: Porra, vocês demoraram pra caralho. Achamos que tinham perdido o caminho.
RICARDO: Foi quase isso. Quando a gente chegou na cidade, bateu a maior dúvida. Aí ficamos rodando de carro um tempão até conseguir alguém pra pedir informação. 
GUEDES: Esse povo daqui é muito desconfiado. Ninguém queria falar com a gente.
RICARDO: Até irmos naquele lugar
CABEÇA: Que lugar?
GUEDES: Um botequim cheio de pé inchado. Vocês acreditam que o dono cobrou uma grana pela informação?
EDU: Como assim “cobrou”?
RICARDO: Obrigou a gente a consumir alguma coisa. Só assim ele liberou a informação.
GUEDES (RINDO): Alguma coisa, não. Foi um copão de cachaça que você secou com um gole só.
SERGINHO (RINDO): Quê isso, Ricky. Então você já tá no grau?
RICARDO: Mas o pior de tudo não foi nem a cachaça, mas o papo furado do camarada. Diz ele, vê só que viagem, que algumas pessoas desapareceram nessa área nos últimos dias.
CABEÇA: Mas ele tava brincando com vocês.
RICARDO: Com certeza, mas não parou por aí não. Ele disse também que aqui tem uma família cheia da nota com um filho doente. Aí, esse filho doente fica trancado em um quarto. Mas ninguém é visto por lá há dias. E, pra piorar, o cara ainda falou que os vizinhos ouvem gritos lá de noite.
GUEDES (RINDO): Ou seja, uma verdadeira lenda urbana. Que dizer, nesse caso, lenda rural.
SERGINHO: Mas nem tudo nessa história é mentira.
RICARDO: Como assim?
SERGINHO: Bem, eu tava conversando com pessoal daquelas barracas ali do lado e eles me disseram que algumas pessoas realmente estão desaparecidas. É um grupo de adolescentes que esteve aqui antes de nós. Ninguém tá levando essa história a sério, é claro. Deve ser alguma brincadeira de mau gosto ou coisa do tipo.
CABEÇA: Foram esses adolescentes que espalharam aquela sujeira toda no camping?
SERGINHO: Bom, ninguém viu essa turma sujando o camping. Mas tudo estava limpinho antes deles chegarem. Logo, a gente acaba ligando uma coisa à outra.
RICARDO: E essa história da família rica com filho doente? Também é verdade?
SERGINHO: Em parte. A família Rezende é realmente muito rica. Eles mexem com agronegócios e têm um patrimônio de perder de vista. Mas tem esse filho doente, o Otávio. Pelo que dizem, ele tem uma doença degenerativa muito rara e que avança rápido. Já tentaram diversos tipos de testes e tratamentos, mas nada deu certo. Agora a família decidiu deixar o Otávio trancado em um quarto da casa. Claro, tem uma equipe médica cuidando dele regularmente. Quanto a essa parte da história que ninguém é visto mais na casa, que pessoas ouvem gritos de noite, aí sim, é pura fantasia.
EDU: E o pessoal daquelas barracas ali, onde eles estão?
SERGINHO: Olha, eles me falaram que iam explorar a mata. Devem estar fazendo uma pequena expedição.
GUEDES: Mas essa mata é segura? Me dá medo só de olhar.
SERGINHO: Esse é o Guedes, cagão como sempre. (TOM) Não tem perigo. A mata é segura. (TOM) Pelo menos até onde é permitido circular.
GUEDES: E por quê? Tem alguma área com entrada proibida na mata?
SERGINHO: Sim. Por ser área de preservação ambiental. De vez em quando vêm umas ambientalistas gostosinhas aqui. Vocês têm que ver.
RICARDO: E quem controla o fluxo de pessoas?
SERGINHO: Tem uns policiais florestais e uns agentes do IBAMA.
EDU: Serginho, só mais uma coisa...
SERGINHO (EM TOM DE PIADA): Tá bem, Edu. Só mais uma. Porra, eu sou guia turístico, mas hoje eu tô de folga.
EDU: Beleza, é sobre esses desaparecidos. Você tem algum palpite sobre onde eles possam estar?
SERGINHO: Tenho. Sabe aquele chalé abandonado que tem aqui perto? Minha intuição diz que eles foram pra lá.
RICARDO: Bem, galera. O papo tá bom, mas acho melhor montar nossas barracas antes de anoitecer.
SERGINHO: Então, vamo lá. Quem terminar primeiro vai faturar uma asinha de frango no ponto.

SEQÜÊNCIA 16 – CAMPING – EXTERNA - DIA
Entra clipe de imagens dos cinco montando as barracas e comendo tiras de carne. As cenas devem ser leves e descontraídas, de acordo com o clima de tranqüilidade que impera no ambiente.

SEQÜÊNCIA 17 – ANOITECER – EXTERNA – NOITE
Takes do céu escurecendo. É uma noite estrelada e com lua cheia. O vento balança as copas das árvores e os arbustos. Um ar meio sombrio toma conta da atmosfera.

SEQÜÊNCIA 18 – CAMPING – EXTERNA – NOITE
Os cinco amigos estão sentados em torno de uma fogueira. Guedes está fumando um cigarro, Ricardo se encontra apoiado sobre os joelhos, Edu e Cabeça estão com latinhas de cerveja nas mãos e Serginho dedilha um violão.
EDU (DÁ UM LONGO GOLE NA LATINHA E DEPOIS FALA): Engraçado, eu tava lembrando agora quando a gente se conheceu. Meus pais se separaram e eu fui morar com a minha mãe. Me mudei lá pro bairro sem conhecer ninguém. Aí fiz amizade com o Cabeça, depois com o Guedes, depois com o Ricardo e por fim com o Serginho. Tem muito tempo, né?
CABEÇA (DÁ UM GOLE NA CERVEJA ANTES DE FALAR): Porra, eu lembro como se fosse ontem quando te conheci. Você participou de uma pelada do pessoal lá da rua. (RINDO) Jogava muito mal, mas pelo menos era gente boa. (TOM) É, mas antes de mudar lá pro bairro, minha vida era um inferno. Morando no subúrbio, só me meti em errada. Trabalhei pruns traficantes, (TOM) caras maus. Depois comecei a me envolver com assaltos, a andar com gangues. Eu lembro que em um dos meus aniversários eles me deram um revólver.  Que loucura. Ainda bem que minha mãe vendeu o que tinha e o que não tinha pra me tirar de lá. Eu devo tudo que sou a ela. 
GUEDES (DÁ UMA BAFORADA NO CIGARRO): Eu lembro quando eu roubava o carro do meu pai. A gente marcava sempre na esquina. Depois rodava pra tudo quanto é canto.
RICARDO: Guedes, não tem como esquecer. Você quase matou a gente umas três vezes.
GUEDES: É você, Ricardo? Tirava onda com a nossa cara só porque era mais velho e podia alugar filme de sacanagem.
SERGINHO (RINDO): E vejam no que deu. O cara virou cineasta. Agora, Ricardo, cá entre nós, esse negócio de estudar cinema era só pra fazer filme de putaria mais pra frente, né?
RICARDO (RINDO): Por que não? (DÁ UM BREVE SUSPIRO) Ah, falando sério, quando eu fiz essa merda de curso eu pensava em documentar temas bacanas, defender certos pontos de vista através da arte. Enfim, dizer e mostrar coisas. Que ironia. O máximo que consegui foi dirigir um filme sobre uma lagosta alienígena perdida na Terra.
SERGINHO: E você, Guedes? Novinho e já gerente de concessionária.
GUEDES (DÁ UMA TRAGADA NO CIGARRO E DEPOIS SORRI): Mas não foi fácil. Tive que tirar muita gente do caminho pra chegar lá. É preciso ser forte pra sobreviver nesse mundo dos negócios
RICARDO: Porra, Guedes. Vale tudo pra vencer na vida? Você não fica com peso na consciência?
GUEDES: Não sei. Eu sei é que, se você ficar de frescura, não chega a lugar nenhum.
Um ruído vindo da mata desperta a atenção de todos e interrompe a conversa do quinteto. Clima de suspense. Todos têm a sensação de estarem sendo observados por alguma coisa. Entre arbustos e árvores, o movimento de um vulto com par de olhos avermelhados é percebido por Cabeça. 
CABEÇA (MUITO ASSUSTADO): Caralho, vocês viram aquilo? Eram olhos vermelhos se mexendo entre as folhas.
SERGINHO: Porra, Cabeça. Você se assusta com qualquer coisa, hein? É só um desses animais que vivem na mata.
RICARDO (APLICA UM LEVE TAPA NA CABEÇA DE CABEÇA): Já deve tá doidão de cana, né?
EDU: Por falar nisso, minha cerveja acabou. Tem mais aí?
SERGINHO: Lá no quiosque com certeza tem.

SEQÜÊNCIA 19 – QUIOSQUE – INTERNA - NOITE
Edu se dirige ao quiosque vagarosamente. No caminho, percebe a grama alta, a sujeira pelo chão, alguns buracos. É como se o lugar estivesse abandonado. Um vento fraco e uivante surge e passa por Edu causando arrepio no jovem. A cena é dominada por um forte clima de suspense. Ao avistar o quiosque, Edu percebe que a instalação está depredada e sem cuidados. O lugar tem um balcão e algumas cadeiras e mesas espalhadas desordenadamente. Há, cobrindo a construção, um toldo feito com folhas de palha. Atrás do balcão, prateleiras cobertas de folhas de bananeira com garrafas dos mais diversos tipos de bebidas, alcoólicas e não alcoólicas. Em um dos cantos, pode-se notar um freezer vertical com garrafas de cerveja e de refrigerantes. Outro detalhe que não passa despercebido por Edu é uma espingarda pendurada em um espaço entre as prateleiras. Há uma luz acessa, mas o silêncio transmite a impressão de que não há ninguém no local. Ao se aproximar, Edu percebe que duas pessoas estão no balcão, um homem e uma mulher. Mas as pessoas estão completamente paralisadas. Edu chega ao balcão e se dirige ao homem que lá está. O sujeito apresenta uma fisionomia fechada e glacial. As roupas estão ligeiramente amarrotadas e encardidas. A barba está por fazer e os cabelos totalmente desordenados. No braço do homem, está um curativo feito de forma improvisada. Há uma mancha de sangue na gaze.
EDU (MEIO ASSUSTADO): Por favor, o senhor poderia me arrumar três cervejas?
HOMEM (OLHA FIXAMENTE PARA EDU POR ALGUM TEMPO, DEPOIS LENTAMENTE SE DIRIGE AO FREEZER PARA PEGAR AS CERVEJAS).
EDU (QUANDO O HOMEM SE VIRA PARA PEGAR AS CERVEJAS, OLHA ATENTAMENTE PARA O CURATIVO ENSANGUENTADO).
HOMEM (RETORNA COM AS TRÊS LATAS DE CERVEJA NA MÃO. DEPOIS, AS PÕE EM CIMA DO BALCÃO E OLHA PARA EDU PROFUNDAMENTE).
EDU (MUITO ASSUSTADO, SE ATRAPALHA UM POUCO PARA PEGAR O DINHEIRO NO BOLSO DA BERMUDA. DEPOIS QUE CONSEGUE PEGAR, ENTREGA UMA NOTA DE CINCO REAIS NA MÃO DO HOMEM).
HOMEM (OLHA POR MAIS UM TEMPO PARA EDU, DEPOIS SE VIRA E VAI PARA OS FUNDOS DO QUIOSQUE, DEIXANDO A CENA).
MULHER (TOTALMENTE IMÓVEL E QUIETA ATÉ AQUI, ELA SE VOLTA PARA EDU. TRATA-SE DE UMA SENHORA DE MEIA-IDADE. ESTÁ VESTIDA COM SIMPLICIDADE E PARECE EXAUSTA): Filho, não se assuste com o meu marido. Coitado, hoje ele teve um dia muito difícil.
EDU (CURIOSO, MAS AINDA UM POUCO ASSUSTADO): Como assim “difícil”?
MULHER: Ele se envolveu em uma briga com um cliente. É por isso que está com aquele ferimento no braço.
EDU: O que aconteceu? O cara não queria pagar a conta?
MULHER: Não. Era um cliente antigo aqui do quiosque. Nunca tinha criado problema. Mas, hoje, ele apareceu de manhã e, sem motivo nenhum, já foi atacando meu marido. Chamamos a polícia e ele acabou preso.
EDU: Esse cara tava bêbado ou coisa assim?
MULHER: Não sei, filho. Mas eu nunca tinha visto nada parecido.
EDU (PEGA AS CERVEJAS): Eu sinto muito pelo que houve. Mas se a senhora e seu marido precisarem de algo, é só nos chamar ali nas barracas.

SEQÜÊNCIA 20 – CAMPING – EXTERNA - NOITE
Os quatro amigos continuam em torno da fogueira. Serginho está dedilhando o violão e cantarolando uma música do Zé Ramalho. Cabeça bebe uma cerveja e Guedes fuma. Ricardo folheia um livro e força a vista para enxergar melhor.
 CABEÇA: Serginho, esse pessoal das barracas aí do lado. Já não era pra eles terem voltado não?
SERGINHO: Cara, cê tá certo. Eles já deviam ter voltado. Ou pelo menos dado notícia. (LEVANTA-SE E LARGA O VIOLÃO) Volto atrás deles.
EDU (ENTRA EM CENA COM AS LATAS CERVEJAS): Qual é, Serginho? Já tá indo?
SERGINHO: Não. Só vou aí na mata pra procurar o resto do pessoal. Eles podem ter se perdido.
GUEDES: Pô, Serginho. Você não disse que a mata era segura?
SERGINHO: E é. Mas está de noite e o grupo deles tem três mulheres. Nessas condições, as coisas podem se complicar.
RICARDO: Você acha que pode ter acontecido alguma coisa grave?
SERGINHO: Eu espero que não
CABEÇA: Serginho, eu vou junto.
GUEDES (COM MEDO): Oh, galera. Se vocês quiserem ir, por mim tá ótimo. Não tem problema. Eu fico aqui tomando conta das barracas.

SEQÜÊNCIA 21 – MATA DE CHÁCARA – EXTERNA – NOITE
A mata está escura. Árvores, arbustos, galhos e flores formam entre si um lugar fechado e ermo. O enquadramento da cena começa com um mergulho vertical pela mata. Depois, segue por um pequeno corredor entre a vegetação. Por ele, a câmera vai atravessando o cenário até chegar à entrada do local. De lá, enquadra o grupo de amigos discutindo. Ela vai se aproximando dos seis lentamente até a cena ser cortada abruptamente.

Sobem créditos